E QUE TAL UMA ESCAPADINHA ÀS CALDAS DA RAINHA (PARTE 1)?
- Quinta dos Novos Canastros
- 9 de fev.
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A quantidade de entusiastas que se dedicam a publicar itinerários turísticos na Internet é deveras impressionante. Percursos completos, descritos ao pormenor e profusamente ilustrados, sem que seja visível a fonte de financiamento, suplantam sempre as publicações oficiais do governo, região de turismo ou autarquias. No caso de Caldas da Rainha, veja-se, por exemplo, a “impulsiveaddiction.com”, ou a “viagensasolta.com”, e mesmo a página da responsabilidade da autarquia “gocaldas.com”. Isso é excelente, claro, mas tem alguns inconvenientes, o pior dos quais é pintar o quadro demasiado cor-de-rosa, levando-nos a pensar que tudo é perfeito quando, na realidade, está muito longe de o ser. Com efeito, sem ter a projeção de Óbidos, por exemplo, Caldas da Rainha beneficia de uma boa imagem turística, muito por causa dos seus museus, termas e ligação à Rainha D. Leonor. Infelizmente a realidade não é tão boa e até, em termos de informação, foi a primeira vez que estive num posto de turismo que não tinha folhetos sobre as freguesias do concelho, como se apenas a cidade tivesse interesse turístico. Esse facto e o estado atual da cidade demonstra bem que ainda estamos na idade da pedra do turismo.
JORNADA 17 – VISITA ÀS CALDAS DA RAINHA (PARTE 1)
Sempre tive um carinho especial por Caldas da Rainha, muito por causa dos seus inúmeros museus, imagem em torno do Bordalo Pinheiro e, confessemos, do malogrado 16 de Março de 1974. Só que já não ia lá há largos anos e presumi que a cidade teria melhorado bastante, de modo a justificar a visita, sobretudo em agosto, tempo de imigrantes e outros turistas, durante um fim de semana, a clamar por festas e atrações. Mas enganei-me! Infelizmente não melhorou ou, pelo menos, os aspetos de degradação acabam por suplantar eventuais melhorias, agravados pela ausência de atrações e pelo encerramento de espaços importantes no mês turisticamente mais intenso.
O início tinha de ser o Museu José Malhoa, que reúne uma coleção muito boa de trabalhos do pintor, complementados por outros artistas famosos do Grupo do Leão, que ilustram muito bem os períodos romântico e naturalista, entrando depois pelos modernistas e movimentos de arte mais recentes, onde não faltam excelentes exemplos de escultura como, por exemplo, “Sem Casa e sem Pão", de José Moreira Rato (1919). Esta estátua, juntamente com a “Viúva”, de Teixeira Lopes, no Museu do Chiado, ou “O Desterrado”, de Soares dos Reis, por exemplo, poderia perfeitamente figurar ao lado de muitas esculturas figurativas expostas em Roma, que atraem filas compactas de turistas, enquanto aqui passa quase despercebida. O Museu também inclui salas de gosto duvidoso, como o impressionante conjunto de arte sacra de uma encomenda que o Bordalo não entregou, ou os enormes modelos em gesso de estátuas do Estado Novo, que tiveram de ser cortadas aos bocados para poderem entrar no Museu. Em qualquer dos casos foi um prazer ver o Museu objeto de obras recentes de restauro e, ainda por cima, calhei no horário de uma visita guiada, que muito ajudou à compreensão do conjunto.
Perdida a esperança de visitar o Museu do Hospital e das Caldas, que fecha cedo aos sábados e só volta a abrir na terça-feira, resolvi ir até à Foz do Arelho, que incluía alguns pontos de interesse a visitar. No entanto, à medida que me aproximava desta estância de veraneio, comecei a ver carros estacionados por todo o lado e dei-me conta que, apesar de ser o final de um dia fresco e ventoso, uma multidão impressionante ia estacionando onde podia, nem que fosse a quilómetros da praia. E eu fiz o mesmo, aproveitando para um passeio refrescante até à praia, que só não oferecia um cenário tipo Santo Amaro de Oeiras devido à extensão do areal. E a pressão era de tal ordem que, sem saberem de onde eu vinha ou sequer se tinha carro, as pessoas vinham ter comigo a perguntar se eu ia tirar o carro do estacionamento. Sem palavras! É claro que desisti de procurar os potenciais pontos de interesse (ex. Casa das Conchas, Casa-Museu Dr. Jorge Umbelino, Palacete Almeida Araújo, Penedo Furado) e raspei-me o mais depressa que pude, para não ser submergido pela debandada dos veraneantes. E nem sequer tentei a Lagoa de Óbidos, que deveria estar ainda mais concorrida. De volta à cidade limitei-me a constatar que não havia qualquer tipo de entretenimento, para além do cinema do centro comercial, que me vi obrigado a frequentar, a contragosto.
No domingo comecei por visitar o extenso Parque D. Carlos I, que está limpinho, na generalidade, e com bons núcleos arbóreos, mas o piso de terra, à mistura com tempo ventoso, gera algum incómodo, que muda na parte não cuidada do Parque, cheia dos restos da jardinagem, que dão um ar descuidado, mas acabam por formar um tapete que impede o vento de levantar nuvens de poeira. O Parque inclui ainda um bar-restaurante e os famosos pavilhões, de recuperação sempre prometida e sempre adiada. Inclui ainda um conjunto de edifícios enfeitados com cartazes relativos a um grupo de teatro que não se sabe se ainda funciona. O conjunto resulta, assim, em algo heteróclito, que deixa antever a grandeza de tempos idos, das termas dos finais do século XIX, e de pequenas intervenções, cheias de boa vontade mas sempre dispersas e inacabadas, como parece ser o figurino geral da cidade. Compreende-se que o Concelho não tenha grandes dotações financeiras, mas já é mais difícil de perceber o que foi feito dos dinheiros europeus e porquê a descontinuidade dos planeamentos das vereações se foi sempre um feudo do PSD, exceto nas últimas eleições.
Como a Loja-Fábrica Bordalo Pinheiro só abria de tarde dei um salto até à Praça da Fruta que, felizmente, continua a funcionar perfeitamente e demonstra bem a vitalidade agrícola da região, em termos de produção hortofrutícola. Mal informado sobre a história daquele local não fui capaz de tirar o devido partido do que ainda é visível, em termos de edifícios, tendo inclusive deixado passar o Café Central, totalmente remodelado e com um interessante painel de Júlio Pomar, e a centenária Pastelaria Machado, infelizmente já encerrada. Fui apreciando as estátuas da Rota Bordalo, que decoram a cidade pelas várias ruas das lojas, dando um ar pitoresco à cidade, que se divide entre a fidelidade à Rainha e à tradição do ceramista. Deu para ver o aproveitamento dado aos antigos silos e o aceitável estado de conservação da Estação Ferroviária, com painéis de azulejos que ilustram bem as atrações da cidade, e o seu lago de sapos.
Entretanto eram horas de almoço e já tinha constatado que, sendo uma cidade muito bem servida em termos gastronómicos, a quase totalidade dos restaurantes estava fechada e os poucos abertos não aceitavam reservas, provavelmente devido a clientes que faltavam sem avisar, tendo acabado por almoçar num local para esquecer. Pensando bem sobre eventuais causas deste encerramento maciço da restauração (exceto as pastelarias, felizmente), a culpa apareceu clara – o centro comercial em pleno coração da cidade -, que alguma vereação perspicaz deve ter autorizado nos tempos de expansão destes locais terríveis, que matam tudo à volta, sobretudo se inseridos no centro de cidades de dimensão reduzida e dispondo do inevitável parque automóvel. Pena tive eu de não ter optado pelo café que serve a paragem dos autocarros, que mantém a sua traça original e o ar popular de servir bem. Interessante a Praça de Touros ali ao pé que, pelos vistos, mantém viva a tradição centenária, anunciando uma corrida que tinha acabado de se realizar, mas cujos cartazes não eram visíveis na cidade. Pelos vistos, apesar de anunciada como a mais antiga do país, não parece ser razão suficiente de orgulho. Com o Museu das Termas é o mesmo: apesar de anunciado como o hospital termal mais antigo do mundo, permanece encerrado no dia em que podia ter mais visitantes.
Por hoje ficamos por aqui e a parte depois do almoço constará de outra publicação.






















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