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E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A GAVIÃO (PARTE 1)?

  • Foto do escritor: Quinta dos Novos Canastros
    Quinta dos Novos Canastros
  • 26 de mar.
  • 5 min de leitura

Uma pergunta que me tenho feito a mim próprio diversas vezes é sobre de onde virá esta vontade de visitar o país de uma forma sistemática, seguida de relatórios, como se fosse quase uma missão vinda do Altíssimo? É certo que eu sempre gostei de deambular por estradas secundárias do interior e vielas desconhecidas de Lisboa e outras cidades, à procura de pormenores interessantes. Depois fui-me inscrevendo em visitas guiadas, de fim de semana, nomeadamente as conduzidas pelo professor Moutinho Borges, em associação com a empresa Caminhos com Carisma, e fiquei cliente das visitas guiadas, daquelas em que alguém faz o trabalho todo por nós e nem sequer temos de ler os folhetos. Aprendi a descobrir recantos fantásticos deste retângulo e, a pouco e pouco, fui-me afastando das viagens para locais exóticos, onde eu ia sobretudo participar em congressos, reuniões de projeto e excursões de família. Mesmo assim, no regresso, havia aquela satisfação profunda de voltar ao convívio com pessoas simpáticas, que me davam atenção, falavam a minha língua e me davam a comer coisas boas, que eu já sabia que gostava.


Também me fui aproximando mais dos escritores portugueses, sobretudo da literatura de viagens e dos clássicos e, no geral, de tudo o que tratava de Portugal. Mas a verdadeira razão, creio eu, foi poder ter um emprego de reformado, isto é, algo que me proporcionasse um retorno tal de aprendizagem de coisas que eu acho fascinantes, que todo o esforço realizado me aparecesse como fonte de prazer. É certo que eu tenho muitas ocupações, derivadas das minhas reformas anteriores e da ação social, e a gestão da empresa e das obras ocupa-me um tempo considerável. E tenho os meus filhos, netos, restante família e amigos, donde retiro uma satisfação enorme. Mas não chega! É preciso algo que me dê força suficiente para vencer a preguiça de fazer agitar o cérebro, e isso só consigo com uma escrita que requeira esforço de investigação e comunicação, para que outros tenham interesse em ler.


É claro que existe este pormenor irritante de ter de pagar para trabalhar, mas há muito que faço isso, como forma de retribuir o que o Estado me paga das várias reformas que fui acumulando. Por isso e até ao dia em que o meu espírito colocar dúvidas sobre o interesse disto, vou fazendo estas viagens e escrevendo estes textos, sempre na esperança que haja alguém que possa aproveitar do meu trabalho.


JORNADA 22 – VISITA A GAVIÃO (PARTE 1)


 Eu tinha marcado dormida num alojamento local de Belver, mais pela designação (Belo Ver) do que por outra razão e, apesar de ser quase noite, estranhei não ver ninguém a quem pedir a chave. Procurei, procurei e resolvi telefonar, para concluir que…tinha reservado para a semana seguinte. Felizmente havia lugares e a senhora era simpática, pelo que tudo se resolveu. Fui por as coisas no quarto, à pressa, para ver se ainda conseguia encontrar um bar aberto mas, por curiosidade, dei uma vista de olhos à vista da janela e…era fantástica: um por do sol soberbo sobre o Tejo faiscava através de uma ponte antiga de ferro, realçando as margens e as falésias que se levantavam de ambos os lados do rio, de uma forma que até sugeria miragens do voo de águias e grifos. E o resto também era a condizer: um solar apalaçado, com ameias e tudo, vista sobre o castelo e localização perfeita. Noutro país seria um hotel de luxo, pago a preço de ouro; por aqui é apenas mais um alojamento a preço módico, dentro de um quase paraíso que é Belver.


 No dia seguinte lá estava eu a subir ao castelo, conversando com alguns trabalhadores enquanto esperava pela abertura. Uma vez lá dentro, a Capela de S. Brás aparece na sua magnitude e particularidade de ter a maior coleção de relicários que conheço, em que as relíquias foram roubadas, claro, restando apenas a figura do santo que as sustentava. Ao tempo (Ordem do Hospital, século XVI), as relíquias e o seu tráfico tinham um valor incalculável e, apesar de não haver prova científica, é bem provável que algumas fossem autênticas. Vejam-se alguns exemplos do que as pessoas acreditavam que estaria lá: parte do Santo Presépio; parte da mesa em que se instituiu o Santíssimo Sacramento; um pedaço do Santo Lenho e do Santo Sudário; porção de terra do Monte Calvário; gotas do virginal leite de Maria Santíssima; um dos seus preciosos cabelos; bocadinhos da pedra em que descansou no caminho do Egipto; relíquias da sepultura de Lázaro; cabelos de Santa Madalena. Imagine-se o dinheiro que isto dava à Igreja, complementando o negócio das indulgências, que a Reforma em muito contruiu para derrubar, até surgir algo parecido com as estrelas de cinema e outras personagens famosas, como se mostra agora em séries televisivas.


 Completando a visita com mais umas vistas do Tejo, resolvi depois apreciar a bonita praça central e algumas das ruas adjacentes, metendo conversa com funcionárias do muito bem situado lar de Belver e visitando vários miradouros da cidade. Depois, a Igreja Matriz, devidamente aberta e sem guarda visível, com um interior bem recuperado, de onde se destacam alguns painéis de Pedro Alexandrino, deixou-me a pensar que aquela localidade era tão acolhedora que até o padre responsável devia ser simpático e amigo de partilhar os tesouros à sua guarda com o público. Dali fui visitar o Observatório da Moura Encantada, na esperança de ver um dos tais grifos das miragens, mas é claro que só deu para apreciar mais umas vistas do Tejo. De regresso passei por uma bonita capela e fui visitar o Museu do Sabão. Muito bem concebido e explicado, deu para perceber a importância deste negócio e o papel dos habitantes de Belver na luta contra o monopólio do Estado. A este propósito veja-se o contraste com o que resta da enorme fábrica de sabão de Marvila, em Lisboa, que nem sequer teve direito a um cartaz a assinalar o local. Do sabão foi só descer até ao rio e visitar o Núcleo Museológico das Mantas e Tapeçarias de Belver. Organizado a partir da Fábrica Natividade Nunes da Silva, verdadeiro monumento ao empreendedorismo feminino, faz-se ali uma viagem ao tempo em que o tear de pedal tinha tal importância nas comunidades que a sua presença e os seus sons faziam parte do quotidiano e cultura das populações rurais. E graças aos ateliers que ainda funcionam, deu para comprar uma manta de retalhos que fica muito bem no banco de trás do Mini.


 Depois de um excelente almoço no restaurante O Castelo, onde comi carpa e arroz de ovas de Lúcio muito bem cozinhadas, atravessei a ponte, tendo assim acesso à praia fluvial mais bonita que já conheci, em que a proximidade do castelo joga um papel fundamental, mas que possui todo o espaço bem organizado, bem como estruturas de apoio, viagens de barco pelo rio, e várias construções hoteleiras que fazem apetecer passar ali uns dias de férias repousantes, para quem queira descansar dos tempos passados nas praias do Algarve e do bulício dos centros comerciais.


 Eu sei que a escrita faz pulsar as emoções e que talvez exista um exagero de adjetivos nos textos que vou escrevendo mas, desculpem lá, Belver é mesmo um paraíso a pouco mais e uma hora de Lisboa. Visitem que não se arrependem.



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