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E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A GAVIÃO (PARTE 2)?

  • Foto do escritor: Quinta dos Novos Canastros
    Quinta dos Novos Canastros
  • 26 de mar.
  • 8 min de leitura

 Sempre que conto estas escapadinhas a alguém, as pessoas acham muito interessante, mas perguntam logo se eu não tiro umas férias de vez em quando, viajando para os paraísos exóticos que me falta conhecer, onde se têm experiências únicas e se descansa a valer. E quando eu digo que só faço viagens dessas para estar com familiares, não por gosto pessoal, olham-me com algum espanto, pois estando eu reformado e tendo possibilidades de saúde e financeiras, o mais natural seria que aproveitasse, tal como eles o fazem.


E não vale a pena argumentar. São mundos diferentes e a visão não é conciliável. Como comparar uma ida ao Seixal ou às Portas de Ródão com umas férias na Nova Zelândia, Patagónia ou mesmo aqui perto, na Croácia, por exemplo? E o mais grave é que, até há coisa de um ano e tal, eu fazia dessas viagens e se me aparecesse alguém a dizer o que eu digo hoje, eu não daria atenção. É claro que ainda existe a atitude conciliadora, em que se pode fazer ambas as coisas, à qual eu respondo que não pode, isto é, sobre as viagens ao estrangeiro eu resisto mas faço para estar com a família, e as que faço cá dentro são as que verdadeiramente me dão prazer.


Em que ficamos, então? Como explicar aos meus amigos e familiares que os meus gostos mudaram, sim, mas não no sentido da alienação, nem me fechei ao mundo ou tornei mais egoísta com a idade? A culpa foi deste país, que tem coisas fantásticas em todo o lado, à espera de serem descobertas, sem ser para fazer negócio; gente simpatiquíssima, que dá toda a atenção a um “tipo de Lisboa”, que não conhecem de lado nenhum mas que “talvez seja boa pessoa e interessa-se pela nossa terra”; e restaurantes muito bons, onde se come muito bem, a preço médio ou mesmo muito barato; e tem uma cultura milenar, expressa em excelentes autores e poetas que vale a pena ler e, sobretudo, reler. Claro que não tem a vista da Torre Eiffel, o bem-estar das águas quentes das Caraíbas, o luxo dos grandes hotéis asiáticos e dos shoppings do Dubai, ou a diversidade de destinos dos cruzeiros do Mediterrâneo, mas confesso que já dei para essa freguesia. Já me cansei de esperar nas filas de turistas, de comer mal e caro, das muitas chatices nos aeroportos, de estar sempre a pagar para me distrair ou para ver qualquer coisa, do contraste entre o meu luxo e a miséria dos locais. Ao olhar para trás, no fim de uma vida cosmopolita e agitada, e não sentir que adiantei fosse o que fosse, a outros ou a mim próprio; que não experimentei mais do que uma ou outra coisa impactante, e mesmo essas totalmente por acaso; que dos milhares de pessoas que conheci, poucas ou nenhumas ficaram para o resto da vida; e de tanta coisa que vi, ou que experimentei, nada ficou exceto a perda gradual da capacidade de apreciar, pois já tinha visto tudo e experimentado tudo. E quando olhava para trás e a minha memória se entretinha a fazer resumos, as coisas ficavam cada vez mais nebulosas, à medida que perdiam importância no meu espírito. No fundo, nada tinha construído de duradouro.


Assim, meus amigos, fiquem vocês na vossa que eu fico na minha. É que já não preciso de falar dos animais selvagens do Kruger Park, nem das tribos Masai, nem que estive em Machu Picchu e Angkor Wat, para me “integrar” nas conversas. E como é raro encontrar interlocutores para partilhar as belezas de Almeirim, ou de Sobral de Monte Agraço, vou ficando limitado a ouvir, o que também não é mau, se nos conseguirmos alegrar com a experiência dos outros. E por cada amigo que, por ter lido os meus escritos, me diz que ficou interessado em visitar algum dos itinerários, eu acho logo que consegui uma vitória retumbante e fico todo satisfeito.


JORNADA 23 – VISITA A GAVIÃO (PARTE 2)


De Belver a Gavião são meia dúzia de quilómetros, mas eu tinha visto a possibilidade de visitar a Anta do Penedo Gordo, em Torre Fundeira, saindo de Belver pela estrada de acesso à barragem e lá fui eu. Andei, andei e, anta, nem vê-la, confirmando o azar que eu tenho quando tento encontrar as muitas atrações arqueológicas que se espalham pelo nosso território. Por isso é que as bem sinalizadas, como as gravuras do Côa ou o Cromeleque dos Almendres, estão a fervilhar de gente, e 99% das restantes estão sem ninguém. Fui seguindo e passando pela praia de Ortiga, mesmo junto à barragem, mas falhei o Núcleo Museológico, que tinha lá coisas interessantes e eu sabia que estava aberto. E falhei porquê?...Porque fiquei a olhar para a barragem e esqueci-me, pronto!


Acho que fiquei perplexo com a barragem, que parecia não ter forma de ser atravessada, a não ser por uma via estreitíssima, entre enormes muros de betão, onde mal cabia o Mini, sem sinais, avisos, nada. Mas era mesmo por ali e lá fui eu entre paredes, seguindo-se um piso de rede metálica que parecia querer ruir a todo o momento, tal o barulho que fazia, e permitia ver o Tejo a fluir em baixo, ficando-se com a dúvida se aquilo ia dar à outra margem ou diretamente ao rio. Deslumbrante ou aterrador, conforme a sensibilidade.


Chegado a Gavião, deu logo para perceber a rarefação de pessoas, em contraste com a grandeza dos tempos passados, desde a glória do Priorado do Crato, com sede não muito longe dali, até aos tempos áureos dos latifúndios agrícolas, que foram definhando no pós 25 de Abril, mas dos quais a vila possui ainda muitos sinais, a começar pelo solar mesmo ao lado da Câmara Municipal e, em especial, o Museu de Arte e Atrelagem. Antiga propriedade da Quinta da Margalha, que ainda hoje funciona como empresa e onde estagiaram personalidades como D. Duarte Nuno, o edifício foi adquirido pela Câmara e adaptado por Carrilho da Graça a um dos espaços museológicos mais interessantes que me foi dado conhecer, que eclipsa totalmente a Igreja Matriz, ali mesmo ao lado. Com efeito, tirando partido de uma série de atrelagens e acessórios de proprietários da região, algumas ainda em uso até há muito pouco tempo, foi possível montar uma exposição que, para mim, excede em muito a do Museu dos Coches, em Lisboa. Para além de atrelados completos dos mais variados tipos, como o de uma ambulância da Grande Guerra, ou comerciais, como o dos grandes armazéns de Lisboa, do Ramiro Leão, o Museu explica em cartazes toda a complexa nomenclatura das atrelagens e exibe uma gama impressionante de acessórios que leigos como eu nunca pensaram existir. “Necessaires” masculinos e femininos, kits de piquenique, porcelanas de campismo e até altares portáteis, permitem dar uma ideia do nível de conforto em viagem que seria impensável hoje em dia, com uma sociedade muito mais sedentária que as dos séculos passados. Até o pormenor das botas blindadas que os postilhões usavam para evitar serem esmagados entre os cavalos galopando a grande velocidade, quando tinham de montá-los em andamento para resolver problemas das atrelagens, e que não justificavam paragem. A visita, sempre guiada por um técnico, permite recuar no tempo e ficar com uma ideia muito mais próxima do grau de sofisticação dos transportes do antigamente, que me levou a olhar com muito mais respeito as imagens que visualizo de filmes ou documentários sobre esses tempos.


Ainda deu para visitar o pequeno Centro Cultural e para perceber a importância da educação musical na vila, em que é a própria escola a fazer de todos os alunos músicos potenciais, criando assim uma autêntica orquestra sinfónica numa povoação com tão pouca gente. O Centro possui ainda um excelente local de lazer, a Eco Laguna, onde muitos jovens aproveitavam o calor que fazia. Ainda pensei em regressar à noite, para participar na festa de que se ultimavam os preparativos, mas o cansaço acabou por vencer, tal a distância que ainda tive de percorrer para visitar algumas das aldeias deste enorme Concelho.


Assim, depois de tirar uma foto a uma casa bem estranha, de algum torna-viagem brasileiro, que servia agora para albergar o marco geodésico de uma terra quase plana mas com vários miradouros sobre as cercanias, segui para a visita às aldeias do Concelho. Começando por Vale de Gaviões, resolvi parar junto à estátua de Mouzinho da Silveira e ficar ali à conversa com alguns habitantes, enquanto esperava que a dona Maria viesse abrir a igreja local. Então, parece que esta grande figura dos governos liberais ali se escondeu em fuga dos miguelistas, e foi tão bem tratado que logo deixou em testamento ser enterrado naquela aldeia, o que não chegou a acontecer, pois os Açores reclamaram a honra de albergar o corpo de um dos seus mais notáveis naturais. Mas ficou a estátua e alguma referência na igreja.


Depois fui até às duas Degracias (Cimeira e Fundeira), famosas por dali serem naturais, entre outros notáveis, o comerciante Ramiro Leão e o médico e político Eusébio Leão, tendo o primeiro fundado os famosos armazéns lisboetas com o seu nome e o segundo distinguindo-se especialmente quando no dia 5 de outubro de 1910 leu a proclamação da República na varanda da Câmara Municipal de Lisboa. E, como conta Hermano Saraiva, foi também pai de uma atriz famosa, que formou uma companhia de teatro que só representava autores portugueses, e se tornou protagonista de um amor idílico de um estudante que a seguiu para o Brasil, ficando com ela até à morte e acompanhando-a nos cursos que dava a políticos sobre falar bom português em público. Depois fui admirar a ponte romana de Ribeira da Venda, ainda em perfeito estado de funcionamento e situada num belo parque de lazer, com todas as estruturas de apoio necessárias. Subindo um pouco fui ter a outro parque, no meio de lado nenhum, mas tirando um excelente partido das águas termais existentes. No parque de merendas do Bando dos Santos, numa obra muito bem organizada pela Câmara, há de tudo, desde locais para churrascos a pequenos cursos de água e zonas balneares, onde não faltam chuveiros de água termal e até uma gruta para explorar. Mais acima, a Lagoa do Brejo permite vários desportos náuticos ou apenas o repouso em zonas frescas. Um verdadeiro mimo! E nem foi preciso visitar as praias do Tejo, como a do Amendoal, pois estas encheram-me perfeitamente as medidas.


Terminei a visita a Gavião com a barriga cheia e como tinha de seguir para Norte, deu para passar por um local semelhante (e com o mesmo nome) a outro onde morreram tantas pessoas, no incêndio de Pedrógão Grande, em 2017. E ficamos estupefactos como foi possível o fogo varrer uma autoestrada daquela largura, exatamente em dois pequenos afloramentos de árvores, que ainda se veem queimadas, enquanto tudo o resto à volta não ardeu. Impossível prever tal coisa, que deve ter reunido todos os azares que era possível concentrar para condenar aqueles infelizes. Um pouco mais à frente, em Vila de Rei, outra surpresa das que decorrem frequentemente pelo interior, desta vez o Grande Prémio de Enduro, que aproveitei para assistir um pouco. É certo que poderia ter aproveitado para visitar o complexo que construíram para assinalar o centro geodésico de Portugal, mas isso seria ceder a tentações turísticas, preferindo ir lá quando visitar o Concelho, e também porque já estava atrasado para almoçar. Avisado pelo pessoal das motas que era melhor ir almoçar a Ferreira do Zêzere, lá fui enganado a um restaurante de multidões, de que me arrependi bastante. Enfim, não se pode ter tudo e há que ter cuidado a quem se pergunta.


 

 

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