E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A VILA VELHA DE RÓDÃO?
- Quinta dos Novos Canastros
- 10 de mar.
- 9 min de leitura
Uma ocorrência que tem surgido com frequência nestas viagens é a existência de casas musealizadas, coleções variadas (devidamente organizadas) e até estatuária, de caráter privado, que algum colecionador ou artesão decidiu montar ao longo da vida e que, por falta de herdeiros interessados, ou por outra razão, fez menção de entregar a uma entidade pública, normalmente à junta de freguesia local. E a junta, na sua boa vontade, prontificou-se a abrir ao público e, na medida das suas possibilidades, a manter o espaço em condições. Só que as intenções mudam com o tempo, assim como as circunstâncias, e é perfeitamente natural que um pequeno organismo público, num local remoto, que quase não consegue assegurar as suas tarefas obrigatórias, acabe por declinar a possibilidade de “fazer o jeito”. É claro que não se está a tratar de grandes museus privados e fundações, devidamente organizados e financiados, mas sim de pequenas coisas, a nível das aldeias que, na maior parte das vezes, nem sequer figuram nos roteiros turísticos do concelho ou da especialidade em que se inserem.
E dá pena ver estes espaços, por vezes muito bem organizados e contendo valores consideráveis, ficarem interditos ao público ou morrerem simplesmente no esquecimento. É claro que o problema é complexo e deve estar inserido numa teia de legislação bem extensa e especializada, uma vez que abrange mil variações possíveis e uma miríade de soluções difíceis de padronizar. Ora, o simples habitante, ou turista, leigo nestas coisas, mas interessado em manter vivos locais quase desertos, gostaria que a iniciativa privada pudesse ser melhor aproveitada pelo coletivo, pois essa é uma das funções dos organismos públicos. É claro que existem excelentes exemplos, como o que se descreve mais à frente neste texto, em claro contraste com o Museu do Brinquedo de Alpalhão, por exemplo, referido no texto anterior e que, muito provavelmente, nunca mais verá a luz do dia.
À cabeça deste problema aparece o património religioso, quase sempre inacessível, nas pequenas localidades, pelas razões sobejamente conhecidas. Só que não é geral: várias autarquias encontraram soluções que permitem facultar os templos ao público, seja por ausência aparente de vigilância física (ex. Belver), voluntariado (ex. Torres Vedras), ou rotação de horários (ex. Santarém). Ora, se existem soluções visíveis, isso quer dizer que é possível, bastando apenas uma maior atenção às pequenas coisas, se necessário em detrimento de investimentos mais vultuosos, ou concentrados nas sedes concelhias, como foi o caso do Centro de Artes e Ofícios de Nisa.
O potencial criativo de certas pessoas é incomensurável e independente da sua condição económica, inserção institucional ou habilitações, bastando, por vezes, uma pequena demonstração de consideração por parte das entidades públicas para que os exemplos se multipliquem. Imaginemos, por breves momentos, que uma autarquia anunciava como atração principal, não os seus museus e monumentos, mandados fazer com dinheiros públicos, nacionais ou europeus; não as grandes construções, com o nome do autarca ou do ministro gravados; não os grandes eventos, com artistas sofríveis pagos a peso de ouro…mas sim as iniciativas dos munícipes que tinham sido consideradas com relevo suficiente para receberem o reconhecimento e apoio públicos.
Peço desculpa por este entusiasmo; foi só uma consequência inesperada do vício da escrita. Não fui eu que tive esta ideia parva, foram as minhas mãos. Continuando!
JORNADA 32 – VISITA A VILA VELHA DE RÓDÃO
Tinha tudo planeado, incluindo um passeio de barco. Não tinha era previsto um vendaval de respeito que, não sendo razão suficiente para cancelar a visita, limitou-a significativamente. No entanto também lhe conferiu um cenário quase mítico, que acentuava a imaginação sobre aquilo que não se conseguia ver. Com efeito, logo que subi a encosta da Vila e visualizei as Portas do Ródão, sob forte temporal, veio aquele entusiasmo gerado pelos filmes e documentários de cenas fantásticas de perseguições e fugas em desfiladeiros profundos, do tipo do Papa-Léguas (Road Runner), com escarpas onde voam águias e dragões, em plena tempestade. Bom, não exageremos, mas confesso que era esta um pouco a ideia que me levou a explorar o Tejo Internacional, convencido que encontraria desfiladeiros muito mais profundos que as Portas do Ródão, do tipo Grand Canyon, antes de realizar que este local ainda é o único que mantém algo do cenário selvagem original, pois tudo o resto foi normalizado com a construção das barragens. Mas isso eu não sabia e como o importante é a ilusão, fui até ao Posto de Turismo buscar informação que apoiasse as minhas expetativas. Os funcionários, sempre simpáticos, forneceram-me muito material sobre o Concelho, mas não faziam ideia de como era toda a extensão impressionante dos quase 27 mil hectares do Tejo Internacional, mais do dobro da área do Concelho de Lisboa. Senti-me um perfeito pioneiro!
Como estava junto ao rio fui explorar o ancoradouro, onde era suposto ver algo do imenso património arqueológico que o Tejo fornece. Ou fornecia, diga-se antes, pois a subida das águas comprometeu a exposição dos 20.000 anos de civilização gravados na rocha, sendo possível agora admirar gravuras nos núcleos do Fratel, Cachão do Algarve, São Simão e Gardete, mas apenas quando as águas baixam significativamente. Junto ao ancoradouro estão apenas visíveis os locais das escavações, devidamente tapados para proteção dos predadores. No entanto tudo foi organizado por forma aos visitantes poderem ter uma ideia da fauna visível a partir daquele local, há muitos anos atrás. Uma bonita ponte, dando acesso a um miradouro, permite atravessar a foz de um afluente do Tejo (Ribeira do Enxarrique), de onde brotam cascatas intensas, pelo menos quando há temporal. Desta forma, as más condições de tempo vieram favorecer a visita ao local.
Dali seguiu-se uma visita a um dos bons exemplos de colaboração público-privada que é possível encontrar por essas terras fora. Trata-se do Museu dos Minerais, que se pode ver mediante a deslocação de um funcionário do Posto de Turismo. Junto à estação de comboios, um elemento da GNR decidiu dedicar a sua vida a juntar um acervo impressionante de minerais, perfeitamente etiquetados e organizados, provenientes dos quatro cantos do mundo e, quando não tinha mais espaço…foi viver para outra casa. Assim, uma moradia de dois andares ficou inteiramente preenchida com a exposição dos minerais, tendo sido entregue ao município para poder ser aberta ao público. Sem placas identificadoras, fotografias laudatórias, nada. Viva! Tiremos o chapéu a este senhor e à Câmara que o apoiou.
Mas a visita museológica por excelência seria depois ao Centro de Interpretação de Arte Rupestre do Vale do Tejo. Num edifício inteiramente dedicado ao tema, uma exposição mista de gravuras reais e de projeções visuais ocupando as paredes da sala, dão ao visitante uma ideia do valor patrimonial escondido nas profundezas das águas, e do excelente trabalho realizado pelas equipas arqueológicas, em termos do levantamento e ilustração.
Estava na altura da visita obrigatória ao melhor ponto de observação das falésias - o Castelo do Rei Wamba -, não sem antes admirar o complexo fabril existente no vale, com as fábricas de pasta e papel pertencentes à Navigator e à Celbi (Grupo Altri). Tendo esta última partido de uma fábrica inicial, construída por um emigrante, que se manteve a funcionar muito para além da sua vida útil tecnológica, ainda apresenta o aspeto clássico, com as suas torres e fumos, e com o problema do cheiro quase resolvido. Do lado da Navigator os imensos pavilhões tornam quase impossível adivinhar que se trata de uma moderna fábrica de tissue, herdeira da antiga AMS, que foi adquirida pelo grupo Portucel-Soporcel, mais tarde Navigator. Desta forma se garante o pleno emprego (e uma boa coleção de restaurantes) numa região isolada mas estratégica, em termos de linhas de comunicação e de acesso à água e às matérias primas. Mas voltemos ao rei Vamba.
Com lendas muito conhecidas sobre este pretenso rei visigodo, retiradas das histórias dos sultões e princesas, árabes e cristãs, a torre do que teria sido um castelo de vigilância sobre o Tejo ergue-se majestosamente naquele ponto dominante, proporcionando uma vista soberba a quem se quiser aventurar por aquelas paragens. Mas, apesar do interesse da construção, não é esse o mote principal do local. A verdadeira atração do promontório são as belíssimas aves de rapina que escolheram a falésia para habitar. Dos grifos e abutres às águias, bufos e até cegonhas pretas, toda aquela malta escolheu este local para nidificar. E, pensaríamos nós, a oportunidade de ver um destes magníficos animais ocorreria uma vez por ano, em condições e a horas especiais, nunca a meio da manhã e debaixo de um temporal. Pois enganei-me! É certo que São Pedro ajudou um bocado e permitiu algumas abertas, mas imaginem o deslumbramento do turista ao ver aves enormes, voando a uma altitude que tornava impossível distinguir quais eram. Indiferentes à chuva e ao vento, conferiam àquele espaço um cenário perfeito, só reconhecível em construções artificiais, do género do Senhor dos Anéis ou Harry Potter. Uma e outra vez passaram a poucas centenas de metros de onde eu estava, tornando-me impossível sair dali, na ânsia de conseguir fotografar uma delas, apesar de completamente encharcado pelo temporal. Finalmente, o bom senso venceu e decidi retirar-me, exatamente no momento em que uma delas passava a uma distância fotografável com um simples telemóvel. O dia estava ganho! É claro que há um segredo para aquela profusão de rapinas, que consiste no pessoal do ambiente depositar em determinados locais carcaças de gado morto, fornecido pelos agricultores. Mas não interessa! O propósito é benéfico e o resultado fantástico…e os turistas não precisam de saber a história toda.
Ganho mas não completo, pois ainda faltava o resto do Concelho e o mítico Parque do Tejo Internacional. Iniciei então a travessia da serra até à Foz do Cobrão, que passa por ser uma bela estância balnear, enquadrada por bonitas falésias, que lhe dão um ar de montanha suíça. Como o Núcleo do Linho e da Tecelagem estava fechado e desviava-me muito se seguisse pela barragem do Fratel, apanhei novamente a A23, em direção a Castelo Branco e saí em Sarnadas, onde estava anunciado um Núcleo Museológico do Azeite. Com pouca fé no destino, mas como era perto da autoestrada, lá fui até à Junta de Freguesia, situada num daqueles edifícios de tijolo, com aspeto insalubre e frio. Acentuado o meu estereótipo negativo, esperava ser recebido por alguma funcionária pouco interessada, que me diria que não estava lá a pessoa que tinha a chave, ou que o lagar estava em obras. Mas não! Recebeu-me um antigo graduado da Armada, agora reformado e colaborador da Junta, que me levou ao espaço de fabrico de azeite mais bem conservado e completo que vi até hoje, e me explicou todo o processo utilizado antigamente, com algumas máquinas ainda a funcionar e com todos os acessórios em bom estado, incluindo os esquemas diabólicos para roubar o cliente e enganar os inspetores. E uma visita que eu esperava demorar uns minutos prolongou-se por mais de uma hora, mas uma hora bem empregue, sem um minuto enfadonho ou desperdiçado. Os meus parabéns e o meu muito obrigado!
Só que este prolongamento colocava em risco o meu programa do Tejo Internacional, devido ao adiantado da hora. Mas não desisti, claro, tendo sido aconselhado pelo ex-marinheiro a tentar ver alguma coisa do Tejo num miradouro situado numa povoação a seguir a Perais, chamada Monte Fidalgo. Só que não sabia se haveria estrada para lá chegar, pois trata-se de uma zona remota, sem qualquer acesso à barragem de Cedillo - o meu objetivo. E que o anunciado Núcleo Museológico do Contrabando estava fechado. Perante estas dificuldades, o melhor seria desistir. Mas não, não iria agora comprometer o que tinha idealizado, a não ser por manifesta impossibilidade. E ainda tinha o incentivo de poder visitar a Herdade da Urgeira, considerada uma estância de exceção. E lá fui eu…
Andei, andei e lá encontrei uma bela herdade, no meio de lado nenhum, num cenário recuperado do fabrico de azeite, mas em jeito de obra de arquiteto paisagista, com lago artificial, passeios de barco e outras facilidades hoteleiras. Como no caminho me cruzei com automóveis de grande luxo, deduzi que aquilo é um nicho próprio do agroturismo e que está a funcionar bem. Aliás, eu esperava que naquela imensa terra, correspondente a uma mancha no mapa, sem estradas, povoações ou outros acidentes, nada ou quase nada existiria. Pois enganei-me: está tudo tratado e cultivado e até encontrei vários grupos de emigrantes asiáticos a passear, que não estavam ali por acaso. Depois foi a aventura por estradas desconhecidas, ladeadas por bonitos separadores de pedra extraída das rochas locais, em jeito de enormes lascas de xisto. E, finalmente, a opção por descer a pique por um itinerário que me havia de conduzir ao Tejo e à barragem de Cedillo, que já contei na introdução do texto anterior e que valeu por si a viagem. Com efeito a paisagem de uma barragem não tem grande interesse, a menos que o rio esteja enquadrado em margens tratadas por mão humana, como no Douro. Mas o ato de conseguir chegar a um local remoto é sempre excitante e o deserto aquático é sempre belo.
Regressado a Vila Velha, deu ainda para ver o exterior do muito anunciado Lagar de Varas, no extremo Sul da Vila, objeto de um investimento muito considerável. Apesar de já estar fechado e das obras ainda seguirem o seu curso, deu para perceber que, por muito dinheiro que se gaste, dificilmente poderá alcançar a beleza e o interesse do lagar de Sarnadas, contruído, muito provavelmente, com muito mais amor que dinheiro.


















































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