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E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A ARRUDA DOS VINHOS?

  • Foto do escritor: Quinta dos Novos Canastros
    Quinta dos Novos Canastros
  • 23 de mar.
  • 7 min de leitura

Um objetivo frequente entre gente de idade madura (e não só) é o de “…não hei de morrer sem conhecer… (tal lugar, ou país)”. É um objetivo perfeitamente legítimo, assim como são outros de ler, ver, fazer, antes que seja demasiado tarde. Por isso fazemos ou importamos listas de lugares a visitar, livros a ler, filmes a ver, e qualquer livro de autoajuda aconselha-nos a fazer estas listas com a promessa de que a nossa vida melhorará, como se as listas agissem à laia de ansiolítico, ajudando-nos a pactuar com a angústia da finitude. E, de cada vez que riscamos algo da lista, sentimos um alívio do objetivo conseguido e do aumento da realização pessoal.


Sem querer entrar na complexidade da neurose das listas, como na obra de Umberto Eco (“A vertigem das listas”) e muito menos tecer comentários sobre a forma de cada um organizar a sua vida, acho apenas interessante esta urgência de conhecermos determinados locais, normalmente locais famosos, em termos turísticos, como se isso pudesse contribuir para preencher melhor a nossa vida e a nossa realização pessoal. Pela minha parte, confesso que não partilho esses objetivos e perco, sem angústia, leituras de livros ditos obrigatórios, filmes de culto, programas de televisão, enfim, muito daquilo que preenche as nossas necessidades culturais quotidianas. E, claro, perco a visita a destinos imperdíveis, sem que um sentimento de malogro tome conta de mim.


Será que estou a perder o interesse pela vida? Pois, eu acho que não, já que, em contrapartida, interajo com mais pessoas, vou a mais espetáculos, leio mais livros, ajudo mais necessitados, visito mais locais e, no geral, faço mais coisas do que fazia… . Só que não faço listas, não sigo as tendências do momento, não preencho as expetativas dos outros, não sei os resultados do futebol, nem quantos drones a Rússia lançou hoje, nem quem foram os últimos reféns resgatados em Gaza.


Mas isto está a ficar demasiado biográfico, quando o objetivo era fazer o relatório de mais uma viagem, desta vez do lote de visitas de proximidade, de mota, neste caso aos concelhos de Arruda dos Vinhos e Sobral de Monte Agraço. E porquê estes? Porque sim e porque não tinha ideia de alguma vez ter passado por lá.


JORNADA 30 – VISITA A ARRUDA DOS VINHOS


Num belo dia de prolongamento do verão pelo outono fora, optei por percorrer as curvas das estradas secundárias até Arruda dos Vinhos, atravessando esta bonita região saloia de Lisboa. Uma vez chegado à Vila, deu para perceber a sua boa organização e arrumação urbana, naquilo que parece ser um excelente subúrbio de Lisboa para se viver.


Comecei por estacionar no centro e tomar um café, entrando de seguida numa loja muito atraente e bem decorada, de artigos regionais, onde comprei vinho e umas “bruxas” - doces típicos dali com a referência à famosa “Bruxa d’ Arruda”- nome dado a Maria Olinda, que ficou famosa pelas suas curas, em plano século XX, e que acabou por se tornar um ícone da terra, estando representada sob muitas variedades de merchandising. Dali fui até à Igreja Matriz, que estava fechada, claro. Ainda tentei encontrar a detentora da chave, pois a Igreja é famosa pelo seu património, mas não tive sorte. Por isso limitei-me a fotografar a entrada manuelina e a apreciar o antigo edifício dos Paços do Concelho e Cadeia, com a sua torre sineira oitocentista. Depois foi a aventura de GPS a tentar encontrar o posto de turismo, mas, por mais voltas que desse, nada. Afinal estava mesmo ali no centro, por detrás do imponente chafariz pombalino, como parte de um bonito solar adquirido pela Câmara, agora designado por Centro Cultural do Morgado. E, afinal, era muito mais do que um posto de turismo, contendo um Centro de Interpretação das Linhas de Torres; um excelente Auditório, que pode ser alugado a preço módico; a Galeria Municipal, infelizmente em fase de montagem de nova exposição; um bonito jardim, a Biblioteca e uma Oficina de Artesão, que descreverei mais à frente. Esta concentração de valências num único edifício pareceu-me uma excelente ideia para um concelho de pequena dimensão, ainda por cima bem decorado e organizado, e com direito a visita guiada, pois era o único visitante, para variar. Deste conjunto merece-me referência especial a Oficina de Artesão, recheada de modelos em madeira dos edifícios emblemáticos de Arruda mas, melhor que isso, de um moinho de vento em perfeito estado de funcionamento, onde é possível perceber todo o ciclo da moagem através de uma animação muito bem conseguida. O senhor Paulino, ex-motorista da Câmara, é realmente um artesão de valor e a autarquia faz muito bem em apoiar e recolher as obras feitas graciosamente por este verdadeiro artista. O meu anfitrião, funcionário dedicado que, entretanto, tinha optado por adquirir formação superior suplementar, ainda me levou a visitar a Biblioteca, decorada em função da origem do palácio e sob o nome de Irene Lisboa, ali se guardando algum acervo desta importante escritora e pedagoga, natural do Concelho, de quem acabei por comprar algumas obras. Tal como acontece noutras pequenas povoações, é um gosto ver estas bibliotecas municipais, em geral bem concebidas e organizadas, frequentadas por jovens e menos jovens, raramente vazias.


Regressando ao local onde tinha deixado a mota, perto da Igreja, tive a sorte de calhar no meio de um batizado, o que me permitiu visitar e apreciar mais esta construção tipicamente manuelina, refeita com especial cuidado, já que Arruda era um local onde o rei e os nobres se deslocavam para se protegeram das vagas da peste. E, sendo “dos Vinhos”, a decoração da Igreja substituiu o habitual cordame dos navios por vides. Imagino o que teria sido esta Igreja antes dos franceses terem levado tudo o que poderia ter valor, nomeadamente uma cadeira com espaldar de prata que, talvez em virtude da debandada urgente para lá da linha defensiva, não foi resguardada da rapina.


E era altura de almoçar, tendo eu a opção pelo famoso Fuso, ou por outras sugestões de residentes conhecedores, sendo a mais atraente “O Cantinho da Granja”, com a promessa de servir bom bacalhau e mais barato que O Fuso. Só que acordei um pouco tarde e já estava esgotado. No entanto, como estamos em Portugal e eu era só um, logo se ouviu o convite simpático: “Venha lá que a gente arranja-lhe um canto.” E arranjaram, claro, assim como arranjaram forma de ajustarem a dose só para uma pessoa quando o mínimo era para duas. E, claro também, depois de um excelente almoço, as sobras eram de tal volume que ainda deram para duas refeições de duas pessoas cada. E, no meio da degustação, ainda deu para uma leitura rápida de outro livro que eu tinha adquirido no Posto de Turismo, onde figuravam rezas, benzeduras, mezinhas, provérbios e outras curiosidades, sob o título de “Guia prático da Bruxa D’Arruda”, em clara demonstração de que a inteligência também existe nos locais pequenos.


Seguiu-se a visita ao Concelho, que é dominado pelas elevações onde figuraram vários fortes das Invasões Francesas, sendo o mais conhecido o Forte do Arneiro, já pertencente a Sobral de Monte Agraço. No caminho ainda deu para passar pelo que resta da casa da Bruxa D’Arruda, que bem merecia ter ao menos uma placa a assinalar, já que o Concelho bem aproveita o seu nome. Ainda tentei visitar outros fortes, mas a navegação de mota é difícil e, perante a ausência de sinalização, quase impossível. Por outro lado, o declive acentuado do terreno, aliado à cobertura de gravilha, difícil para uma scooter pesada, desaconselham a insistência. Em todo o caso, reconheçamos o esforço considerável na recuperação dos fortes e na construção de centros de interpretação ao longo dos mais de 80km da linha principal, o que torna este complexo talvez um dos que de mais atenção foi alvo, em termos patrimoniais.


Finalmente, Sobral de Monte Agraço é pouco mais do que uma aldeia, que tem toda a sua identidade construída à volta das Invasões. E faz bem, pois o património é impressionante e os locais de uma importância indiscutível, tais como, por exemplo, a praça central, onde teve lugar um confronto importante entre tropas de ambos os exércitos, que se saldou por uma centena de mortos e uma vitória dos franceses. O Centro de Interpretação tem tudo isto muito bem ilustrado e documentado, com vídeos, quadros interativos e modelos em tamanho real, mas a praça, já agora, bem merecia alguma forma de materialização da batalha, que desse aos visitantes uma ideia mais aproximada do acontecimento. Em qualquer dos casos, para quem pretenda saber algo mais pormenorizado sobre as Invasões, ou mesmo por simples curiosidade, a visita a Sobral é incontornável. Para além deste tema, vale a pena ver a Igreja Matriz, mais por ter sido uma oferta da Casa dos Condes Sobral, do que propriamente pelo valor patrimonial, já que os franceses até as pedras devem ter roubado. Com efeito, toda a povoação foi saqueada e queimada, exceto a mansão dos Sobral, uma vez que o Conde era casado com uma francesa, filha de um ajudante de campo de Bonaparte. E, já agora, se me permitem uma história pessoal, aqui vai: sendo eu aluno do Colégio Militar, por volta do meu 5º Ano, tive uma única visita de um dos meus antecessores com o mesmo número (28), o então Conde Sobral, senhor já idoso mas de distinta figura. Nesta instituição é costume os vários cursos fazerem uma romagem de saudade, sendo acompanhados pelos alunos com o mesmo número. A conversa prolongou-se e, inevitavelmente, perguntou-me que tal andava o meu aproveitamento escolar, o que me deixou algo embaraçado, pois eu era um aluno muito fraco, que passava sempre à tangente. Só que o comentário dele deixou-me completamente maravilhado: “Tu toma bem cuidado, pois tens uma responsabilidade importante de manteres a tradição dos 28 como uns perfeitos cábulas, sendo por isso que ainda não tiveste antecessores, já que chumbam todos antes de terminarem o Colégio”.


Mas, se a Igreja Matriz não é grande coisa, já o mesmo não se pode dizer de uma verdadeira pérola ali perto – a Igreja de Santo Quintino – que se salvou da rapina por se situar junto de um posto de observação aliado avançado. Também mandada construir por D. Manuel, trata-se de um Monumento Nacional, com horários de abertura, e um autêntico “Museu do Azulejo”, que vale a pena visitar. Painéis atribuídos a Gregório Lopes, púlpito bem decorado e o batistério, construído por Simão Correia, são razões suficientes para descobrir um caminho nem sempre fácil para chegar a esta pérola da região saloia. Mesmo assim e para além dos fortes, falhei muita coisa, como o Moinho do Sobral e a Praça de Touros, por exemplo, mas a noite já caía e ainda queria aproveitar o percurso de regresso pelas estradas secundárias e salvar o bacalhau que trazia na mala. E, na douta opinião do meu amigo Eduardo Gavino, residente na Arruda, parece que consegui captar o essencial.


E assim se findou um dia interessante e pleno de descobertas, ali mesmo à mão de semear de Lisboa e impossível de conseguir num desses paraísos exóticos que tanto vos atrai, ó meuz amigozzz.


 

 

 

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