E QUE TAL UMA ESCAPADINHA ÀS CALDAS DA RAINHA (PARTE 2)?
- Quinta dos Novos Canastros
- 26 de fev.
- 6 min de leitura
Um objetivo sempre perseguido mas nunca atingido é o de conseguir anunciar todos os eventos que ocorrem numa dada região numa única agenda ou página web, que possam depois servir para informar os interessados e melhorar a imagem da oferta cultural dos concelhos respetivos. Mas, por mais gabinetes de coordenação existentes, municipais ou intermunicipais, e pedidos às associações e comissões de festas locais, nunca se consegue reunir toda a informação pertinente, suscetível de interessar a visitantes ou residentes na região. Assim, quem percorrer as várias estradas vê muitos pequenos cartazes coloridos a anunciar festas, bailes, exibição de músicos, provas desportivas, espetáculos motorizados e muitos outros eventos que não constam em nenhuma agenda oficial, mas que as todas as pessoas dessa região sabem que vão acontecer. Os visitantes é que não sabem. Por outro lado, as agendas culturais estão cheias de eventos sofisticados, em geral na sede do concelho, mas são omissas quanto aos eventos populares.
E as Caldas da Rainha não fogem à regra. Eu poderia ter assistido a eventos que ocorriam perto da cidade se soubesse que eles existiam. Mas, para isso, era preciso passar pela estrada onde figuravam os anúncios, no dia em que os eventos ocorriam ou, eventualmente, fazer parte de alguma lista de distribuição de correio eletrónico que eu desconhecia. Só por sorte. E é pena, pois eu teria mesmo interesse em assistir a alguns deles.
E ainda há aqueles que nem precisam de ser anunciados pois toda a gente sabe que vão ocorrer, exceto os que não são de lá. Procissões, bailes, festas da vila ou aldeia, comemorações várias que ocorrem sempre na mesma data… Não, decididamente, Portugal está muito longe de ser um país virado para o turismo interno.
JORNADA 17 – VISITA ÀS CALDAS DA RAINHA (PARTE 2)
Depois de almoço fui até ao Centro de Artes, onde estão representados três escultores (Leopoldo de Almeida, António Duarte e Barata Feyo), encerrado que está o dedicado a João Fragoso. Este conjunto de edifícios, datado dos anos 1980, alberga um bom conjunto de escultores do século XX, mas a generalidade das obras obedece ao estilo das encomendas do Estado Novo, o que reduz substancialmente o interesse. Com o Museu de Cerâmica encerrado, assim como várias casas-museu, Museu do Ciclismo e outros, nada mais restava do que regressar ao centro da cidade para tentar ver alguma igreja e exemplos de Arte Nova. Das igrejas só foi possível ver a matriz (Nossa Senhora da Conceição), sem qualquer interesse particular, já que tudo o resto, incluindo as ermidas e, sobretudo, a da Misericórdia (Nossa Senhora do Pópulo), estava encerrado. Esta última, apenas disponível durante a missa, constitui uma quase ofensa aos visitantes, não havendo qualquer justificação para manter encerrado aquele que é, talvez, o património mais interessante das Caldas, ainda por cima classificado como Monumento Nacional.
Descendo até à Fábrica Bordalo deu para ver a loja, já que o Museu estava fechado, agora com um conjunto menos variado de peças, talvez porque os novos donos (Visabeira) tenham achado que era preciso reduzir o inventário, acompanhado de um brutal aumento de preços. Sendo a cerâmica a atração principal da cidade, em termos comerciais, mas já sem o antigo glamour da “Louça das Caldas”, que agora é vendida livremente, enquanto antes era às escondidas, com os dois museus encerrados e o acervo da fábrica muito reduzido, ficam apenas as lojas generalistas, como a Sapo, a representar a atividade. Fiz ainda mais um périplo pelo centro da cidade, antes de me aventurar pelas freguesias marítimas, apreciando as boas recuperações das fachadas dos edifícios de Arte Nova, ou de Torna Viagem (Brasileiros”), que são em menor número que os devolutos mas, pior que isso, rivalizam lado a lado com assassínios urbanísticos, como o que mostro na fotografia. A seguir fui ver a Fonte das Cinco Bicas e interessou-me uma série de construções esquisitas, revestidas a azulejos, num descampado mais acima. Por detrás desse monumento ao mau gosto estava um espaço arborizado, em que eu experimentei entrar e consegui. Pois antes não tivesse conseguido, já que se tratava do que já deve ter sido uma mata lindíssima, junto ao Hospital da Misericórdia, com o nome de Mata Real Rainha D. Leonor. Agora é um espaço horrível, totalmente abandonado, que deveria estar encerrado ao público para não se mostrar tamanha vergonha, em vez de ser anunciado como uma maravilha. Aliás, tudo nas Caldas é anunciado como maravilha, independentemente de estar recuperado, encerrado ou destruído.
Dediquei-me depois a conhecer a estrada que segue junto ao mar, até S. Martinho do Porto, que já pertence a outro concelho. Deu para parar em miradouros com boa vista sobre as falésias, mas com muita sujidade, infelizmente, na Serra do Bouro. No miradouro de Salir do Porto tem-se uma vista soberba sobre a grande duna de Salir e sobre a linda baía de S. Martinho, assim como sobre as estradas de acesso, completamente atulhadas de automóveis. Tendo conseguido livrar-me das filas no regresso às Caldas, dirigi-me ao pavilhão da Expoeste, onde decorria uma grande festa popular (Tendinhas), com música, artesanato e, sobretudo, tendas das várias freguesias, que ofereciam pratos deliciosos. O espaço foi ficando completamente lotado e eu decidi-me logo pela proteção do Divino, optando pela tendinha da Paróquia de Salir de Matos, onde fui muito bem servido, percebendo melhor porque é que o Zé Povinho, do Bordalo, tem uma barriga tão grande. É que o povo pode ser roubado e violentado, mas vinga-se bem comendo e bebendo delícias que os Michelins nem sonham, cumprindo a visão de Miguel de Unamuno (“Por Tierras de Portugal y de España”) sobre os portugueses: “comamos e bebamos pois amanhã morremos”. Aliás, esta construção do Bordalo criou no imaginário nacional a visão de que o povo come e dorme sem se revoltar contra a opressão, enquanto a história contradiz essa placidez, como refere Frei Amador Arrais (séc. XVII) “O mundo espanta-se e tem inveja da nossa ferocidade”. Interessante que, apesar de completamente lotado, o espaço era mencionado como fechado, na Internet e, quando perguntei a algumas pessoas na cidade, não sabiam onde era (o cartaz também não dizia). No fundo, esta separação entre a cidade e o campo já era evidente na ausência de informação sobre o Concelho. Que me desculpem eventuais leitores estas deambulações, mas o evento das Tendinhas foi a única coisa que realmente marcou a diferença nesta visita.
E chegou segunda-feira, dia em que Portugal encerra para a cultura, exceto em Santarém (que eu saiba) que, inteligentemente, faz variar os dias de encerramento dos monumentos, para que possa sempre haver algo para visitar. Por isso agendei a visita às tais freguesias que não fazem parte da informação disponível no posto de turismo. Mesmo assim decidi arriscar e tendo já visitado a zona marítima, desloquei-me para o interior, de Norte para Sul. E valeu a pena, não pelas aldeias e vilas em si, na verdade sem grande interesse, mas porque estão inseridas numa paisagem agrícola muito cuidada, onde abundam pomares a perder de vista, vinhas, hortas, prados, eu sei lá, tudo complementado com instalações industriais, tais como depósitos, fábricas, maquinaria agrícola e mercados distribuidores. Ali, ao contrário da cidade, não há sinais de miséria ou desemprego, nem por ali vagueiam os imigrantes orientais que enchem as ruas das Caldas. Também dá para percorrer os contrafortes da Serra dos Candeeiros, com matas bem cuidadas, sem sinais de incêndios, por boas estradas, vistas deslumbrantes e boas surpresas como um concurso de espantalhos, organizados para uma festa local, perto de Salir de Matos; um moinho de madeira bem recuperado (Moinho das Boisias), em Alvorninha; estradas ladeadas por árvores monumentais, em Tornada; e a antiga Malaposta, em A-dos-Francos. Deu bastante trabalho conseguir orientação no intrincado das estradas e caminhos sem qualquer sinal, como é característico em Portugal, mas valeu a pena, sobretudo porque a temperatura era bem agradável. A este propósito, refira-se que a estadia ocorreu com uma temperatura média cerca de 15º mais baixa que a do Algarve, o que, por si só, já justificava a visita.
No final, em que ficamos? Pois é difícil dizer, numa avaliação de conjunto, já que os contrastes são muitos e o meio termo é raro, tal como é difícil perceber a evolução errática das estratégias autárquicas, sem qualquer continuidade aparente. Eu sei que os portugueses rejeitam sempre o trabalho que outros fizeram antes e começam tudo de novo, mas nas Caldas parece que exageraram. Também sei que o nosso princípio de base é “a competência vem depois”, sendo a única solução dos que não querem ou não podem ser considerados fiéis, emigrar, mas há, com certeza, algum fator do poder autárquico nas Caldas que leva este princípio ao seu valor mais elevado, talvez agravado pela multiplicação de gabinetes com poderes conflituantes, governados por amigos do partido – o drama principal da ineficiência do Estado. Enfim, retomemos…
Se lá voltasse (espero que sim), evitaria as desgraças da cidade e as perdas de tempo em estradas complicadas, em que o GPS não ajuda. E iria mais bem informado, com algumas leituras preparatórias (se possível sem utilizar as instalações do horrível edifício da Biblioteca Municipal), que me ajudassem a entender melhor os 500 anos de história que ali estão representados. No entanto, e a menos que tenha notícia de que alguns espaços importantes reabriram e estão melhor cuidados, a vontade de regressar não é muita, infelizmente, a não ser pela temperatura amena no verão. Também deu para perceber porque é que as tais páginas web de divulgação turística, bem como outros suportes publicitários, dispensam interrupções com anúncios comerciais, tipo You Tube. É que, ao contrário destes apontamentos, só dizem bem do que relatam, o que deve favorecer o apoio das entidades oficiais.
Os meus sinceros agradecimentos ao casal Dominique e Carlos Serra, e ao Edorindo Ferreira, bons conhecedores da cidade, pela informação prestada e correção dos textos.


























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