E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A ABRANTES (PARTE 1)?
- Quinta dos Novos Canastros
- 21 de fev.
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Quem é que, entre os que já têm alguma idade, não passou por Abrantes? Muitos, com certeza, em direção a Castelo Branco, Marvão ou Portalegre! Não obrigatoriamente pela cidade, mas perto, pela estrada de Alferrarede, direita a Mação, a Norte do Tejo; ou pela do Rossio ao Sul do Tejo e Pego, direita a Gavião, a Sul (sem contar com a A23, claro); ou a caminho de Tomar, por Martinchel e barragem do Castelo de Bode. E quem é que já visitou Abrantes? Visitar mesmo, vendo os monumentos, indo ao Castelo, comendo nos restaurantes? Pois ninguém, ou melhor, muito pouca gente. Pois foi o mesmo comigo: eu passei muitas vezes próximo de Abrantes, mas nunca tinha lá ido. E que pena, pois a cidade (e o Concelho) vale mesmo a pena.
JORNADA 19 – VISITA A ABRANTES (PARTE 1)
Com isto de me furtar ao trânsito da 2ª Circular, cheguei demasiado cedo a Abrantes, com tudo ainda fechado, exceto o cemitério, para onde me dirigi a ver se encontrava algo interessante, mesmo sabendo que esse é um local onde só se vai com uma intenção definida. Claro que apenas constatei a sobrelotação, tal como acontece na maioria dos cemitérios urbanos que não se podem expandir (também esta questão dos funerais e enterramentos precisa de uma reforma completa, ao estilo Maria da Fonte). Podia, por exemplo, ter visitado a zona ribeirinha, que foi devidamente organizada, a Norte e a Sul do Tejo, designada de Aquapolis, com praias, esculturas, parques, zona de bares e restaurantes. Só que apenas descobri isso mais tarde, depois de receber informação completa no Posto de Turismo, situado num canto um pouco escondido, próximo de um enorme edifício do estilo Estado Novo, que eu pensava ser a Câmara Municipal mas que, afinal, era o Tribunal. Face à sua dimensão, muito maior que a da Câmara, presumo que deva tratar muitos processos, com muitos funcionários, ou então, muito provavelmente, só uma parte é que funciona, servindo o resto para arquivar listas telefónicas antigas, como diria o MEC. O mesmo deve acontecer com o Hospital, totalmente sobredimensionado para a cidade e para o pessoal de saúde existente, para além de constituir um assassínio urbanístico.
Depois fui ver uma exposição de modelos do Anglia Fascinante, um carro muito popular nos anos 1960, da Ford Britânica, devido ao tejadilho invertido e à resiliência do motor. A exposição enchia totalmente a bonita Biblioteca Municipal, que partilha o antigo edifício do Convento de S. Domingos, muito bem reabilitado segundo um projeto de Carrilho da Graça. O colecionador descreveu em pormenor as áreas da exposição, que reuniam milhares de modelos, colecionados durante uma vida inteira. Na sequência da exposição, a diretora da Biblioteca fez uma visita guiada, com especial atenção a António Botto, a quem é dedicado o edifício. Confesso que não conhecia a obra do poeta, vítima da arbitrariedade de Salazar, que o expulsou para o Brasil por causa da sua homossexualidade assumida, onde levou uma vida de dificuldades, acabando por morrer atropelado. A expulsão e proibição da parte da obra que realçava a beleza masculina não impediu o regime de aproveitar o que lhe interessava, nomeadamente a letra do que se tornou o verdadeiro hino do santuário de Fatima “…a 13 de maio…”, depois de devidamente aprovado pelo cardeal Cerejeira. Devido à extensão não prevista da explicação do colecionador fiquei com pouco tempo para ver as oito exposições do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, mas como o meu objetivo era mais dirigido à cidade não me preocupei nem voltei lá, até porque me pareceu mais um exercício de megalomania do tipo do Hospital, com a preocupação de encher todas as dependências do Convento, acabando sobredimensionado para o público potencialmente interessado em arqueologia e arte sacra.
O almoço foi num restaurante que já conhecia, com um nome pomposo, que serve bem e caro – a Casa Chef Victor Felisberto – pois os outros de referência (Santa Isabel, O Ramiro e o L’École) estavam fechados. Depois foi subir até ao Castelo, a partir da igreja de S. Vicente, que só abria mais tarde para a missa. E o Castelo valeu bem a pena. Com uma dominância total sobre o Tejo e terrenos circundantes, foi sendo sucessivamente preparado para resistir à evolução dos armamentos, desde a reconquista cristã até às Invasões Francesas, sendo agora mais uma fortaleza que um castelo. O interior e a Torre de Menagem estão bem recuperados, mas o brilho vai para a Igreja de Santa Maria do Castelo e Panteão dos Almeida, com o interior muito bem decorado e ilustrado, contando as vicissitudes de Abrantes com as tropas de Junot. Interessante o monumento dedicado a um general de artilharia do período da Grande Guerra, com a particularidade de ter sido construído por subscrição dos seus oficiais, o que é coisa rara. Sem tempo para ver se apanhava a missa na Igreja de S. Vicente, aproveitei a proximidade do bonito edifício do Museu de Arte Contemporânea Charters de Almeida e fui conhecer a obra do arquiteto, de que só me lembrava a escultura dos círculos vermelhos, no relvado da Reitoria da Universidade de Lisboa. O Museu é bastante completo e chama bem a atenção para toda a obra espalhada pelos quatro cantos, com especial incidência para Abrantes.
Dali foi o tempo de descer e percorrer a pé o casco velho, agradavelmente recuperado e decorado, a começar pelo edifício da Câmara Municipal, os jardins, as pastelarias com a “Palha de Abrantes” e as fachadas das igrejas, a deixar adivinhar um interior interessante, caso fosse possível vê-las. Era tempo de recolher ao Hotel Luna, muito bem situado no Parque do Alto de Santo António, com uma vista quase tão boa como a do Castelo. Com uma recuperação em jeito de boutique hotel, do antigo Hotel Turismo, construído nos anos 1950, segundo um projeto do arquiteto Lacerda Marques, o único hotel da cidade preenche bem os requisitos e estava esgotado, tirando partido do que eram as piscinas municipais e oferecendo sessões de cinema ao ar livre, abertas a quem quisesse aparecer. E a população de Abrantes bem precisa, pois com as igrejas fechadas, tal como a Galeria de Arte e o Cineteatro, não há grande coisa para ver, como se queixa o meu amigo António Leitão, que mora lá desde o tempo em que o Regimento trazia milhares ao espaço urbano, e a quem agradeço a correção deste texto. E é pena, pois Abrantes deixa uma sensação bem agradável ao visitante e podia-se aprender mais sobre a cidade se o Museu se orientasse nesse sentido, só precisando de mais gente para usufruir da boa oferta cultural e gastronómica existente.
Mas era novo dia e tempo de avançar para visitar o Concelho, em que, pela primeira vez nas Escapadinhas, se colocava a possibilidade de cumprir o plano traçado, que nem deu para ver um museu de cavalaria anunciado no quartel do antigo Regimento de Infantaria 2, agora designado como Regimento de Apoio Militar de Emergência.








































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