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E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A FERREIRA DO ZÊZERE?

  • Foto do escritor: Quinta dos Novos Canastros
    Quinta dos Novos Canastros
  • 23 de fev.
  • 5 min de leitura

Esta opção que tenho escolhido de tentar visitar um concelho como um todo, em vez de ir apenas às sedes e a um ou outro ponto turístico, tem uma lógica própria que eu gostaria de manter. O concelho tem sempre uma unidade que transcende a mera atribuição dos limites a uma câmara municipal. Com efeito, a definição da responsabilidade tem uma história longa, ancorada ou não na distribuição de terras e na atribuição de cartas de foral pelo rei, na organização autónoma das comunidades, ou no agrupamento de terras sob uma mesma unidade eclesiástica ou aristocrática. Em qualquer dos casos, a definição do território tem por base alguma lógica, que acaba por conferir uma certa homogeneidade social, política e económica. Sendo assim, conhecer apenas a sede do concelho é insuficiente para ter a noção de conjunto e optar só pelos motivos turísticos mais conhecidos é desprezar a descoberta de valores escondidos e de tesouros anónimos.


É por isso que, na maior parte das vezes, quando confronto naturais ou residentes de determinado concelho com os meus percursos de viagem, consigo sempre dar-lhes a conhecer aspetos que desconheciam, ou de que já não se lembravam. É certo que o inverso também é verdade, mas não podemos por no mesmo prato da balança o conhecimento de alguém que passa por um local com quem lá vive, ou viveu. Por outro lado, quem possui ligações familiares na região vai sempre recolhendo pareceres e notícias sobre os desenvolvimentos havidos, com os quais nunca concorda totalmente, gerando um sentimento de desgosto pelo conjunto, enquanto que o visitante ocasional limita-se a constatar aquilo que vê e ouve, apenas, sem grandes possibilidades de saber como foi a evolução havida e as polémicas subjacentes. Assim e quase invariavelmente, o ex-residente ou natural, possui uma visão mais negativa do concelho do que o turista ocasional. No caso de Ferreira do Zêzere, senti-me muito orgulhoso de poder revelar à minha médica, natural de lá, alguns aspetos particulares que ela desconhecia mas, infelizmente, tive de concordar com a sua visão menos positiva da gestão do Concelho.

Passo então a descrever.


JORNADA 33 – VISITA A FERREIRA DO ZÊZERE


Acabado que foi o percurso do Tejo, com 30 viagens, começado na Póvoa de Santa Iria e terminado na barragem de Cedillo e, se bem que ainda falte o Concelho de Salvaterra de Magos, bem como a última aldeia avieira (Rosmaninhal), ainda no Tejo Internacional, no rio Ponsul, a ideia tem sido a de mudar do Tejo para o Zêzere, pelo que se impunha a visita a Ferreira do Zêzere. Isto não obedece a nenhuma estratégia em particular, para além de dar preferência a regiões tidas como menos interessantes e não demasiado longe de Lisboa.


Saído bem cedo de Lisboa, como mandam as regras, optei por visitar o lado Ocidental do Concelho, pois assim não tinha de voltar para trás a partir de Ferreira do Zêzere. Conforme os conselhos do professor José Hermano Saraiva, comecei por Avecasta, com o seu miradouro junto a um moinho bem original, em madeira e sistema rotativo no seu conjunto, que deve abrir em dias de festa, provavelmente. Infelizmente as muitas placas existentes no local apenas servem para enumerar as muitas figuras públicas que tiveram algum papel na recuperação do moinho, em vez de explicarem algo sobre a construção. Apesar de não haver nenhuma placa indicativa, deduzi que a Gruta de Avecasta devia ser ali perto e não me enganei. Só que, em vez de poder explorar um espaço em que se acredita já ter estado uma aldeia inteira, nos tempos da Idade do Bronze, deparei-me com uma vedação de arame, devidamente encerrada. Assim é garantido que ninguém estraga o interior, nem ninguém aproveita nada, diga-se de passagem. Enfim, os começos não foram muito animadores.


Dali segui por Areias e Pias, sem sorte nenhuma com as igrejas, assim como com as sepulturas visigóticas, sempre longe da estrada e requerendo um programa próprio para serem vistas. Pena não poder ter visitado a igreja de Pias, com um exterior interessante, mas fui logo esclarecido que só com visitas agendadas através da Câmara. No entretanto, deparei-me com uma quinta enorme, com arquitetura bem original, de tipo neoclássico e inspiração maçónica, que me disseram ter sido mandada construir por um industrial de Lisboa, há uns bons 80 anos, mas a quem, infelizmente, os negócios tinham corrido mal. Mais à frente um solar a fazer lembrar tempos áureos da economia agrícola, do sec. XIX, ou anterior, mas que não consegui qualquer esclarecimento por parte das entidades oficiais.


Chegado finalmente à Vila, constatei que é realmente muito pequena e sem grandes atrações no tecido urbano. O próprio Posto de Turismo é um mini quiosque, no jardim, mas o que é certo é que tinha lá uma funcionária, ainda que pouco informada sobre o Concelho que, isso sim, possui variados polos de interesse. Ainda deu para fotografar um belo exemplar das Escolas do Conde Ferreira, também omisso nas indicações turísticas. Depois de um almoço sofrível, também pouco procurado, em virtude de uma indisposição, fotografei um mural com os “heróis” do Concelho (Ivone Silva, Alfredo Keil, António Baião e Maria Dias Ferreira), seguindo depois para a Biblioteca Municipal, dedicada ao Alfredo Keil. Ali encontrei interessante bibliografia da responsabilidade do autor do Hino Nacional e de várias óperas, como a “Serrana”. Colecionador de instrumentos, pintor, ilustrador e escritor, esta figura acaba por estar pouco representada no Concelho, já que o Museu Kiel do Amaral, em Viseu, monopolizou muita da sua produção, e até o seu local de trabalho, famoso também pelas paragens de D. Carlos - A Estalagem dos Vales – continua em local anónimo e em ruínas. António Baião, pedagogo e historiador, com uma obra importante sobre a Inquisição, tinha lá uma excelente monografia sobre o Concelho. Ivone Silva, famosa atriz de teatro e revista, e Maria Dias Ferreira, grande benemérita e responsável por vários melhoramentos, incluindo um hospital e o início do abastecimento de água, tem uma praça com o nome da família e um centro social com o seu nome.


Dali segui para o Lago Azul (Castanheira), conhecida estância de veraneio, que me limitei a fotografar ao longe, subindo depois para a bonita praia de S. Pedro de Castro e apanhado a estrada para a Sertã, que me havia de levar à pérola turística do Concelho – Dornes. Passando por Águas Belas e Paio Mendes, sem me esforçar por ver as igrejas ou os solares existentes, dada a certeza de poder ver algo muito mais interessante depois, até porque já tinha confirmado que o Posto de Turismo e a Igreja estavam abertos. Só que não contava com um acidente inesperado, quando uma visitante resolveu subir à parte superior do presépio montado na base da famosa Torre Pentagonal Templária, desequilibrando-se e caindo desamparada, obrigando à intervenção do INEM. Vai daí tudo parou na localidade e não consegui entrar na famosa Igreja de Nossa Senhora do Pranto nem no Posto de Turismo, que se mantiveram encerrados muito depois da acidentada ter sido evacuada e apesar do horário claramente indicar a sua abertura. Ainda me disseram que haveria projeção multimédia na parede da igreja, à noite, mas é claro que não iria ficar à espera, nem sequer tinha garantias que algo se realizasse.


Eu estou consciente que a época turística acabou e que não há quase ninguém a visitar os monumentos. Mesmo assim isso não é desculpa para os horários não serem cumpridos, nem haver mais informação sobre monumentos importantes, em claro desprezo pelo visitante. Ainda tentei ver algumas das sepulturas visigóticas existentes perto de Bêco mas, novamente, encontravam-se demasiado longe da estrada que um Mini pode percorrer, pelo que me limitei a fotografar um exemplar da arquitetura tradicional numa das povoações atravessadas. No final tive de reconhecer que a impressão deixada não deve diferir muito da expressa pela minha médica. Apesar de não saber as razões, nem estar dentro das questões autárquicas, deu para perceber que algo não funciona bem no reino de Ferreira do Zêzere, infelizmente. O facto de ser a autodenominada "capital do ovo", porque “fez a maior omelete do mundo, pesando aproximadamente 6.466 quilos”, não adiantou muito à visita e à impressão com que fiquei.


 

 
 
 

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