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E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A NISA?

  • Foto do escritor: Quinta dos Novos Canastros
    Quinta dos Novos Canastros
  • 9 de fev.
  • 7 min de leitura

Eu acho que uma das minhas características é a curiosidade. Não propriamente a coscuvilhice, para a qual não tenho o mínimo de vocação, nem mesmo para conhecer melhor os podres dos meus antecedentes familiares, mas sim para tentar saber mais sobre o que me rodeia e que, por qualquer razão, representa um mistério que eu sinto desafiante e cuja investigação está dentro das minhas possibilidades e interesses. E isso tem a ver com o microturismo? Pois eu diria que é mesmo a sua essência. Não propriamente o querer conhecer mais e mais, ou colecionar destinos famosos, mas sim o gosto em descobrir coisas que pouca gente vê, seja por não estarem assinaladas, ou por terem acessos difíceis, ou por serem tidas como pouco importantes. E, perdoem-me a imodéstia, mas esta curiosidade funciona quase ao nível instinto, pois permite-me ter sucesso ao insistir em caminhos que não se sabe onde levam; a visitar exemplos lindos de arquitetura tradicional, que nem sequer figuram nos folhetos; ou a procurar explicações junto dos residentes que me podem revelar segredos escondidos.


Eu dou um exemplo:

Na última viagem que fiz eu tinha interesse especial em conhecer o Tejo Internacional e, mais propriamente, a barragem de Cedillo, mas já sabia que o acesso ao rio não era possível a partir de Malpica do Tejo e tinham-me dito que se podia ver alguma paisagem perto de uma povoação chamada Monte Fidalgo. Sem outra orientação que não fosse essa e na ausência de qualquer pista no GPS ou mapas disponíveis, resolvi atravessar a povoação e continuar em frente. Passados uns quilómetros eis que encontro uma tabuleta em madeira tosca a indicar “Miradouro”. Virei imediatamente nessa direção mas, pouco mais à frente, surgiu uma bifurcação com nova tabuleta a indicar o miradouro para a direita, enquanto a estrada da esquerda começava a descer acentuadamente. Tendo em consideração que era quase noite, que a estrada era muito estreita, tornando quase impossível o cruzamento com outros carros, ou a inversão de marcha, para além de revelar sinais do revestimento de alcatrão acabar ali mais à frente, o que seria perfeitamente razoável era virar à direita e tentar encontrar o tal miradouro, até porque o Mini não autoriza qualquer espécie de todo-o-terreno, com os seus poucos centímetros de distância ao solo. Mas não, não segui o razoável e virei à esquerda. E porquê? Porque sim, mais nada. E fui descendo, descendo, cada vez com mais curvas e maior declive, até que começo a ver ruínas recentes de casas, que não tinham qualquer razão para estarem ali, no meio do nada. E, de repente, enquanto a estrada alargava no que deveria ter sido um acesso a ancoradouro e ia morrer diretamente ao rio Tejo, surge a barragem de Cedilho a menos de 100m, em toda a sua majestade e iluminação noturna. Aquela era, talvez, a estrada que tinha servido a construção da barragem, do lado português, e as casas deveriam pertencer a operários que, entretanto, se tinham ido embora.


Ora, onde é que eu fui buscar indícios de que aquela estrada me levaria a algum lado interessante, muito menos ao rio e à barragem? E eram assim sinais tão evidentes que justificavam eu correr riscos consideráveis? Pois, sinceramente, não sei. Se calhar, na altura, se houvesse alguém que me perguntasse, talvez eu pudesse ter dado alguma justificação mas, a esta distância, não consigo. Aliás, se tivesse alguém comigo o mais natural seria tentar desencorajar-me de ir por ali e talvez eu tivesse concordado.

Giro, não é?


JORNADA 31 – VISITA A NISA


Lembrava-me perfeitamente de ter visitado Nisa, numa das visitas orientadas pelo professor Moutinho Borges mas, sinceramente, não me lembro do que tínhamos visitado, para além da rua de Santa Maria e o seu empedrado característico. É o problema destas visitas guiadas: são muito interessantes mas esquecemos rapidamente os pormenores, porque não nos deram trabalho nenhum a preparar.


Depois da visita ao Posto de Turismo, de arrumar as coisas no alojamento e de jantar, fui passear um pouco pela bonita e ampla praça, que concentra todos os serviços disponíveis na Vila, incluindo o Cineteatro, onde estava a decorrer a cerimónia de tomada de posse da nova vereação, a que eu aproveitei para assistir, pois nunca tinha visto nenhuma. Interessante o facto do auditório estar completamente cheio, apesar do programa ser algo enfadonho, como é de calcular. No entanto, para alguém residente, este é um acontecimento marcante e é uma delícia ouvir os comentários da assistência à medida que decorre a apresentação dos eleitos.


No dia seguinte deu para admirar algumas das moradias da praça central e a bonita estátua ao emigrante, bem como de visitar o casco velho, cheio de sinais da presença dos judeus, com as suas portas e janelas características, que a generalidade dos proprietários manteve, felizmente. Percorrer a rua de Santa Maria era obrigatório, assim como as Portas da Vila e, no geral, as ruas estreitas, em desenho perfeitamente cartesiano e, no conjunto, razoavelmente bem conservadas. A Igreja Matriz é que não foi possível, pois o funcionário andava por parte incerta e não havia alternativa para abrir a porta. Aproveitei para apreciar o bonito hall de entrada do Lar da Misericórdia, em pleno centro da Vila e, fechados que estavam a igreja da Misericórdia e o seu Museu, iniciei a visita aos museus.


Nisa é famosa pela louça com empedrado, desde há muito vendida diretamente nas paragens dos comboios, bem como pelos bordados, devidamente expostos no Museu do Bordado e do Barro e em vários outros espaços que servem, simultaneamente, de locais de trabalho, de ateliers e de espaços museológicos. Honra seja feita à icónica ex-presidente Idalina Trindade, que possui poemas espalhados pela cidade e múltiplas criações de vestidos, expostas no Museu, que combinam o tradicional e o moderno. Mas o que é marcante é o conhecimento aprofundado sobre bordados com que Nisa premia os seus visitantes. Combinando beleza e variedade, a Vila soube valorizar muito bem este património que, de certo modo, é menos conhecido do que a olaria de empedrado. No meu caso, que pouco ou nada percebo do assunto, fiquei vivamente sensibilizado para a variedade e complexidade do ofício. Animado a não perder o Centro de Artes e Ofícios, deu para visitar um extenso pavilhão onde figuram mostras de toda uma série de ofícios raros ou já extintos, numa seleção que se vê repetida em vários locais e que talvez não justificasse um investimento daquela dimensão, em espaços e em funcionários, pois com todo o interesse que possa ter, não deixa de ser uma criação artificial e transversal a qualquer município.


Terminada a visita à Vila era tempo de conhecer o Concelho, cheio de motivos de interesse. Comecei por ir almoçar um excelente cação com migas no Regata, em Alpalhão, seguido da visita a uma interessante casa-museu, a fazer reviver o cenário da casa tradicional, mas com uma arquitetura interior que eu nunca tinha visto, em termos de separação dos espaços destinados a pessoas e a animais. Não deu foi para visitar o Museu do Brinquedo, encerrado para restauro. Note-se que estas visitas só são possíveis por gentileza de funcionários das juntas de freguesia, que tentam manter os pontos de interesse em zonas desertificadas, sem qualquer tipo de apoio da autarquia ou do Estado.


Depois dirigi-me às Termas de Nisa, que eu não fazia ideia que existiam, mas que constatei serem algo de grande dimensão e frequência. Originárias do século XVIII, sofreram várias remodelações, sendo agora um complexo recente (2009), com uma arquitetura de gosto duvidoso, mas com todos os serviços disponíveis, a preços módicos, o que talvez contribua para ser necessário marcar com antecedência suficiente, dada a quantidade de pessoas interessadas. Muito perto da Termas (da Fadagosa) encontram-se vários monumentos funerários pré-históricos, com destaque para a Anta de S. Gens, ainda em perfeito estado de conservação. Dali segui para Amieira do Tejo, que constituía um objetivo de visita há anos. Ali chegado, passei pelo exterior da Capela do Calvário, devidamente encerrada, apesar de ser monumento nacional, e nem procurei encontrar quem tivesse a chave, tal a pressa de chegar ao Castelo antes da hora de fecho dos monumentos. Tudo isto para concluir que era política municipal fechar também à terça, o que não me tinha sido dito no Posto de Turismo, onde também não me tinham chamado a atenção para o interesse do percurso pedestre e passadiços da Amieira, com a sua ponte suspensa, Central Hidroelétrica da Velada e vários pontos de interesse do Sítio de Importância Comunitária de S. Mamede. Algo frustrado por mais esta surpresa desagradável, fui descendo até à Barca do Tejo – uma embarcação toda modernaça e eletrificada, que faz o transporte de pessoas e automóveis entre as margens do Tejo, pois a estação de comboios é mesmo em frente. Por acaso também tinha acabado de fechar para o período de inverno. Se soubesse da ponte suspensa talvez ainda tivesse conseguido atravessá-la antes de ficar escuro, já que não era muito longe do local onde estava. Tenho de lá voltar…e aproveito para ir ver o Castelo de Montalvão, local pouco acessível e debruçado sobre Espanha, que também não pude ver.


Dali segui para o Arneiro dos Conhais, que não sabia o que era, mas como estava no programa, fui ver. O Centro de Interpretação estava fechado, claro, mas deu para perceber que se tratava do resultado da exploração do ouro, anterior ao tempo dos romanos, mas que estes organizaram, resultando no amontoado de enormes seixos rolados de quartzito, denominados conhos. Algo frustrado por não ter acesso a uma explicação mais completa da exploração, fui procurando a saída da povoação e a estrada principal de regresso a Nisa, dispensando o GPS, quando surge uma estrada em bom estado, ladeada de oliveiras bem plantadas, que sugeriam um itinerário importante, mas que eu não fazia ideia onde conduzia. E lá fui eu, claro, apesar da tarde estar já a ficar escura, até que começo a ver extensões a perder de vista dos tais conhos. Percebi então que estava perante mais de 70 hectares da exploração milenar do ouro através da limpeza de sedimentos que corriam por canais artificiais a partir do Tejo, deixando um rasto impressionante de detritos. E fui seguindo pela estrada, fascinado pelo nunca acabar destes amontoados, até que, surpresa das surpresas, fui ter a um cais mesmo junto ao lado Sul das Portas do Ródão. Esta era uma paisagem que eu nunca tinha presenciado, pois a visão normal é do lado Norte, de Vila Velha de Ródão. E, cereja em topo do bolo, ainda consegui vislumbrar uma grande ave a pousar no seu ninho, na rocha. Apesar de ser quase noite e a distância ser muita, confesso que foi quase uma epifania, tão fantástico era o conjunto do cenário, circunstâncias e acontecimento.


Sinceramente, não poderia desejar melhor fim de jornada e tudo muito por causa da tal curiosidade quase instintiva, mencionada a princípio.

 


 
 
 

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