E QUE TAL UMA ESCAPADINHA A PONTE DE SOR?
- Quinta dos Novos Canastros
- 10 de fev.
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As reflexões que produzo como introdução ao descritivo das viagens têm vindo a ocupar cada vez mais espaço nestas publicações, talvez porque as viagens são oportunidades de reflexão e aprendizagem, para além do trajeto em si, que eu acho interessante partilhar. E, se é certo que eu vou aprendendo algo sobre os temas vários que vão surgindo, sobretudo nas vertentes museológicas, acho pouco apropriado descrever o que aprendi sobre determinado tema pois, para além de aborrecido, será sempre muito menos do que um especialista, ou mesmo um curioso na matéria conhecem, e eu nunca atingirei níveis de conhecimento consideráveis sobre os vários motivos com que me deparo, nem é esse o meu objetivo.
Para estas reflexões é importante que complemente a preparação com recurso a autores portugueses, não apenas sobre viagens mas sobre qualquer temática que ajude a perceber o país e o povo. Mas, novamente, não tenho qualquer pretensão a atingir altos níveis de conhecimento literário e muito menos a partilhar o fraco nível adquirido, a não ser com uma ou outra citação, caso pertinente. Aliás, passada que foi grande parte da minha vida profissional e falar através do que os outros dizem, acho que fui perdendo a capacidade de falar por mim próprio e de partir para um texto sem primeiro ter analisado a bibliografia disponível e consultado o indispensável ChatGPT sobre o tema. Longe vão os tempos em que escrevia livros quase sem preparação e lembra-me sempre dos meus inícios, por volta de 1977, em que publiquei sete livros em pouco mais de um ano, enquanto o último livro que publiquei me levou sete anos a escrever.
É claro que é impossível regressar a esses tempos e ao grau de conhecimentos e criatividade que tinha à época, mas posso tentar, não é? Posso arriscar escrever sobre um tema sem fazer consultas prévias, se conseguir enfrentar o medo de parecer ignorante. No fundo, ao fim de tantos anos de estudo e aprendizagens, é forçoso que alguma coisa tenha cá ficado. Que alguma sabedoria exista por aquilo que eu sei e não por aquilo que os outros sabem, senão o que é que valeu toda a acumulação de saberes? Ainda por cima não sinto em mim qualquer vocação de escritor mas apenas de relator. Não sei desenhar cenários com as palavras, nem expandir discursos com a modificação do significado literal das frases e os floreados desinteressam-me; o figurativo domina-me e o passado militar deixou uma tradição sobre o simples e o direto, que se acentuou muito com a minha orientação anglo-saxónica, em termos de estudos e interesses.
E então, eu quero falar sobre o quê?
Pois, sobre o ideal que me leva a fazer estes percursos; a visitar regiões aparentemente sem interesse e a fazê-lo sem quaisquer garantias de que conseguirei justificar o tempo e o dinheiro gastos. Ainda por cima totalmente fora de época, com uma previsão de chuva e frio que afastaria qualquer potencial turista com um mínimo de bom senso. Gostava de partilhar este espírito de peregrino que me assaltou no ocaso da vida, que não visa atingir nenhum objetivo específico, nem percorrer caminhos já identificados e seguros, mas apenas viajar, conhecer, compreender melhor o meu país e as suas gentes e, sobretudo, deixar espaço à sorte, ao acaso de conhecer pessoas que reforcem a vontade de pertencer a esta comunidade e abram novos horizontes que completem esta curiosidade quase mórbida em querer saber um pouco de tudo o que tenha a ver com a minha terra.
Vamos lá, então!
JORNADA 35 – VISITA A PONTE DE SOR
Terminada que foi a inerente preparação da viagem, usando os meios habituais, reforcei a ideia de que a região tinha pouco interesse e, inevitavelmente, o meu estereótipo de que os poucos locais a visitar estariam porventura fechados, com os funcionários de baixa, em reunião ou pedido o dia para afazeres pessoais. E isto é de um microturista com fé; o que seria se não o fosse… Mas planos são planos e há que cumpri-los, mesmo com uma meteorologia desgraçada e a recuperar de uma carraspana. Infelizmente, até o meu amigo João Bastos, que se tinha oferecido para me acompanhar, acabou por desistir, graças a uma infeção pulmonar.
Saído, como sempre, a horas bem matutinas, o primeiro destino era Montargil, que eu conhecia já como polo turístico e que, por isso mesmo, não me interessava explorar nessa dimensão. No entanto não conhecia a povoação e aí talvez houvesse algo a ver. Trata-se de uma povoação antiga e com história, que já foi sede de concelho, pelo que era suposto ter interesse. Mas não tinha… Uma povoação ainda grande mas vazia e sem beleza urbana, em claro contraste com a zona da barragem - uma autêntica Quinta do Lago, em termos urbanísticos e de vivendas de luxo. Dá a ideia que a povoação cresceu à custa dos operários que construíram a barragem, nos anos 1950, bem como com a ampliação turística posterior, mas que, finda a obra, mantiveram as suas casas simples, que ocupam esporadicamente, uma vez que a atividade decresceu muito. E o conjunto foi perdendo a grandeza de outros tempos, em favor de Ponte de Sor que, essa sim, deu um salto considerável. Ainda tentei a Igreja Matriz, que tem como curiosidade uma cadeia anexa, mas esclareceram-me logo que não tinha grande interesse monumental nem se sabia quem tinha a chave, tal como acontecia com as inúmeras capelas do povoado. Pelo menos passei pelo miradouro e fotografei o monumento à Nacional 2, que me pareceu a única coisa relevante na povoação.
A coisa não começava bem. Dali segui para Foros de Arrão, um antigo colonato (1912) resultante do arrendamento de parcelas da herdade com o mesmo nome, anterior aos colonatos do Estado Novo (Junta de Colonização Interna), que chamava gente para ocupar e cultivar terras em zonas quase desertas. Ao contrário de outros colonatos mais estruturados que eu já visitei, como o de Pegões, este não obedece a uma arquitetura e textura rígidas, do estilo dos de 1933, mantendo agora a aparência normal de uma povoação bem planificada e extensa. Com efeito, Foros de Arrão aparece como agradável à vista, com gente nas ruas e vestígios de atividade económica. E como estava indicada a existência de um “Centro Interpretativo de Molinologia”, lá fui eu à procura dele, mesmo que sem saber de que se tratava e com a convicção que apenas encontraria umas portas fechadas. Pois enganei-me! Para já decorria uma atividade frenética de preparação do espaço para uma noite de fados, que iria acontecer em breve, já com a lotação esgotada. Mesmo assim a responsável - uma jovem arqueóloga, entusiasta do tema dos moinhos - ainda arranjou tempo para me mostrar o espaço e proporcionar uma “pequena” explicação...de quase duas horas. Trata-se do aproveitamento de uma antiga escola, com uma exposição permanente sobre tudo o que tem a ver com moinhos, em jeito de fazer do tema algo transcendente, desde a invocação da luta entre Deus e o Diabo, à volta do fabrico do pão. Com um levantamento da rede de moinhos recuperados em Portugal, a exposição leva-nos a descobrir a extensão e a história da utilização das múltiplas formas de transformação da força motriz em produtos acabados, derivados dos cereais. O Centro possui ainda outros espaços e salas de exposições temporárias, salas polivalentes para realização de atividades e o Funlab - espaço tecnológico para uso de crianças e jovens, à volta de aparelhos de moagem manual e projeções interativas originais, em caixa de areia, que entusiasmam os visitantes. No exterior existem ainda espaços para espetáculos ao ar livre e de divertimento para os visitantes. Só tenho a dar os meus sinceros parabéns a esta equipa de Foros de Arrão, com realce especial para a sua diretora que, apesar da chuva e vento frio, ainda me foi mostrar um bonito moinho em fase de recuperação.
Era altura de passar pelo posto de turismo de Ponte de Sor para recolher materiais. Infelizmente os responsáveis estiveram sempre em reunião durante toda a minha estadia, pelo que não me foi possível trocar impressões sobre aspetos particulares do Concelho. Mesmo assim uma funcionária do Centro de Artes e Cultura arranjou-me uns folhetos e foi com isso que me fui entreter para o restaurante aconselhado – o Olivença – situado no Mercado Municipal, que serve bem e tem uma boa vista sobre a bonita ponte da cidade. Depois de almoço voltei ao Centro, que é uma espécie de conjunto museológico variado, construído sobre uma antiga fábrica de descasque de arroz – a atividade económica mais importante nos tempos da cultura intensiva do Vale do Sorraia. Para além da maquinaria ainda existente e dos murais que enfeitam o conjunto, dá para perceber o que foi o drama das sezões, ou paludismo, à volta da infestação dos mosquitos que faziam proliferar as febres na população e exigiam a montagem de defesas constantes para uma praga inerente à própria cultura do arroz. A grande atração é um enorme mosaico, da autoria do artista Saimir Strati, especialista em estabelecer recordes do Guiness, materializados aqui pela construção de uma enorme extensão com perto de meio milhão de rolhas de cortiça, oferecidas pela Amorim e outras empresas do ramo, representando a ponte e Saramago. Aliás, eu já tinha visto uma amostra deste artista em Foros de Arrão, que acabou por representar de forma monumental aquela que é uma das indústrias principais da região.
Face ao interesse posto no parque pela autarquia, era forçoso percorrer um pouco o espaço, sobretudo para encontrar os famosos moinhos de água de rodízio. Atravessei a bonita ponte pedonal, da autoria de Leonel Moura, andei para a frente e para trás, mas quanto aos moinhos é que nada. Ainda perguntei a residentes, que me levaram mais longe na procura, mas não consegui ver nenhum moinho; só a bonita Fonte da Vila, meio escondida no final do parque. Por isso e porque já era um pouco tarde, recolhi ao sóbrio Hotel Ponte de Sor, que cumpre bem a sua função de acolher gente em viagem de trabalho. Pelos vistos, Ponte de Sor não é para turistas.
No dia seguinte comecei por visitar a Igreja Matriz, que se mantém alegremente aberta, provavelmente por não haver nada para roubar, e segui à procura dos tais moinhos. Depois de dar umas voltas lá os consegui descobrir numa povoação próxima chamada Tramaga, associados a um açude onde as águas corriam com intensidade. Pelos vistos existem mais moinhos daqueles ao longo da ribeira, mas o piso escorregadio e o mau tempo desaconselhavam a aventura.
Era tempo de sair da cidade e avançar para Galveias, onde esperava encontrar um centro dedicado ao escritor José Luís Peixoto, que eu conhecia muito mal. Depois de fotografar uma bonita capela junto à estrada, entrei na aldeia e estacionei junto à Igreja Matriz. Bem procurei o centro de interpretação mas nada, pelo que fui perguntar a uma mercearia com o título “Loja da Junta de Freguesia”, cujo significado havia de entender mais tarde. Esclarecido quanto à localização mas um pouco acabrunhado com o aspeto desolado da zona central, lá fui dar ao Centro de Interpretação José Luís Peixoto, tendo sido de imediato adotado por duas simpáticas funcionárias, que me explicaram tudo sobre o escritor, natural de Galveias, apoiadas numa série de 13 salas bem decoradas e ilustradas com frases retiradas dos livros do escritor. Sinceramente nunca tinha visto um museu com tanta informação sobre um escritor e a sua obra, sendo que este nem é dos mais famosos da nossa praça e tem a particularidade de ainda estar vivo e de boa saúde. É claro que tive de comprar alguns livros, a começar pelo emblemático “Galveias”, e de ouvir uma interessante explicação, não apenas sobre o escritor, mas sobre tudo que tem a ver com a aldeia que, pelos vistos, já foi sede de concelho (Foral de D. João III) e partilhou a pertença a Avis, antes de passar para Ponte de Sor. E como havia ainda muita coisa para mostrar, convidaram-me a almoçar com elas, no Brazão e, após insistência, deixaram-me pagar a conta de três pessoas, cujo montante era inferior ao do meu almoço no Olivença, mas o prato do dia (migas com carne de porco no tacho) não era menos bom. Sempre em troca entusiástica de impressões sobre a aldeia, as simpáticas funcionárias explicaram-me então que uma rica família da zona tinha deixado a fortuna à Junta de Freguesia, traduzida numa extensa quinta agrícola e prédios em Lisboa, pelo que o presidente da Junta é, também, o gestor de vários negócios, sendo alguns dos produtos vendidos na tal “Loja da Junta”. Depois ainda me levaram a conhecer uma parte da Rota Literária de Galveias, mais extensa que a rota literária do Saramago, na sua terra natal (Azinhaga), bem como à Casa do Trabalhador – uma interessante reposição da casa tradicional, que mostra o que era viver com apenas o essencial. E, não contentes com todo o percurso, convidaram-me para visitar um espaço que ainda está fechado ao público, mas que será em breve o Núcleo Museológico de Galveias, contendo algumas das imensas riquezas da família do comendador Campos Marques e peças de artesanato local. Ainda deu para ver o relógio de sol, junto ao solar do comendador, que a Junta adquiriu e vai recuperar, e a sede da Sociedade Filarmónica Galveense que, pelos vistos, alberga uma banda de grandes dimensões e significado. Muito sinceramente, nunca tinha visto uma simples aldeia com tantos motivos de interesse e com um espírito tão empenhado por parte de representantes seus. Sinceros parabéns às gentes de Galveias e aos órgãos autárquicos, na lição que nos dão de orgulho por aquilo que os representa. Aqui entre nós, dá vontade de rir um possível paralelo com o local onde vivo, no Concelho mais rico e diferenciado do país, em que as pessoas sabem o nome da rua em que moram e o do presidente da câmara, mas pouco mais.
Estava na altura de dar uma vista de olhos à zona industrial e, sobretudo, ao Campus Aeronáutico. Mesmo sem qualquer possibilidade de entrar em contato com alguém que me proporcionasse a necessária explicação, deu para perceber o desenvolvimento local da indústria da transformação da cortiça, componentes para indústria aeronáutica, transformação de resíduos, desmantelamento automóvel, materiais de construção, e produtos florestais. Com quatro empresas do ramo corticeiro (duas da Amorim), impressiona o volume de armazenamento de cortiça, sendo a maior parte transformada ali mesmo. Seguindo para o Campus, passa-se pela N2, com a característica moldura de árvores, mas o mais interessante é atravessar “Águas de Todo o Ano” – povoação cujo nome serviu de inspiração para um álbum da saudosa Geninha Melo e Castro, famosa nos anos 1980 também pela associação com grandes figuras da música brasileira. Depois é percorrer toda a extensão do enorme Cluster Aeronáutico e Aeroespacial de Ponte de Sor, com centro de negócios, empresa Takever (fabrico de aeronaves), instalações do Portugal Air Summit, a Academia Sevenair e muitas mais organizações, incluindo, claro, o Aeródromo Municipal e empresas na área dos satélites. Foi pena não ter uma autorização que me permitisse visitar algo do Campus, mas isso também iria requerer ficar mais tempo na região, o que não estava nos planos.
Ainda fui ver uma ponte dita romana, para os lados de Vila Formosa, que de romana tem pouco mais do que o formato dos arcos, e já não deu tempo para mais exemplares do enorme acervo de arte urbana do Concelho, que concentra contribuições de artistas conhecidos, nacionais e estrangeiros. No final saí de Ponte de Sor - a tal que não tinha interesse nenhum – de coração cheio e vontade de voltar.






















































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