top of page

E QUE TAL UMA ESCAPADINHA AO CRATO?

  • Foto do escritor: Quinta dos Novos Canastros
    Quinta dos Novos Canastros
  • 17 de fev.
  • 7 min de leitura

Um facto curioso que tenho constatado é o aparente desinteresse dos agentes locais em saberem como decorre noutros concelhos (que, provavelmente, não terão visitado) a atividade pela qual são responsáveis no seu e a falta de sentido publicitário que demonstram, pelo menos na utilização de uma potencial figura de divulgação na minha pessoa. Com efeito, quando sou confrontado com descrições entusiásticas sobre determinado tema ou região que estou a visitar, por parte de funcionários autárquicos, ou mesmo de simples residentes, seria normal que procurassem saber mais quando eu faço comparações com algo que vi semelhante noutros concelhos. Mas não! Não só não me perguntam mais sobre o assunto, como não procuram saber quem eu sou, o que faço ali e como poderei servir de agente publicitário para aquilo que fazem, ou que representam. No mínimo deviam pedir-me o meu endereço eletrónico para figurar na lista de distribuição da newsletter que a generalidade das autarquias elabora e divulga. Mas não, não me pedem nada; quando muito perguntam-me onde resido, para efeitos estatísticos.


Aparentemente ficam satisfeitos por terem ali uma pessoa que aparenta interesse em ouvi-los falar sobre a sua ocupação e em partilhar o orgulho que demonstram relativamente à região em que vivem. E falam, falam, falam, normalmente sobre coisas que me interessam, mas não aparentam interesse em ouvir-me partilhar experiências e perceber o que faço ali. Tratam-me até com uma consideração exagerada, como se eu fosse um jornalista conhecido a fazer uma reportagem, ou alguém famoso, com obra publicada sobre o tema que eles dominam. E, no fundo, eu sou só alguém que demonstra interesse em saber algo a que eles dedicam grande parte das suas vidas; que os ouve com atenção e que, até certo ponto, lhes interrompe uma vida algo solitária, já que os turistas são muito escassos, em especial fora de época.


Este é um problema geral, não é? As pessoas têm uma necessidade grande que as oiçam mas não retribuem; não demonstram interesse em ouvir os outros, a menos que se trate de alguém a quem reconheçam competência nas áreas de trabalho deles. É também assim nas conversas: cada um quer afirmar os seus argumentos, não propriamente pô-los em causa ouvindo os outros. Mas, como estamos a falar de profissionais, ou de alguém que colabora na divulgação de algo, seria inerente ao seu posto de trabalho que a explicação fosse acompanhada da componente de marketing, destinada a aumentar a visibilidade do que divulgam. Cada funcionário ou residente deveria ser um agente publicitário da sua região, praticando isso com quem tivesse a oportunidade de interagir. Mas não, nós não temos esse espírito de venda e é pena. Se o tivéssemos poderíamos melhorar a afluência e, sobretudo, a oferta que é feita. Num tempo em que qualquer contato de empresa é seguido de pedido de avaliação pelo cliente, parece um pouco estranho que isso não seja seguido pelos profissionais que trabalham em setores dependentes dos visitantes. Ora, eu não tenho ideia de alguma vez me terem perguntado o que poderiam fazer para tornar determinada instalação mais atraente ao público, ou como poderiam captar mais visitantes. E porque é que não perguntam? Pois eu acho que é por acharem que não vale a pena, o que é, até certo ponto, uma desconsideração pelo visitante, que resulta em claro contraste com a atenção que lhe deram, ao ocuparem muito do seu tempo com explicações. E, se é fácil entender essa passividade num funcionário sem responsabilidades, ou num museu pouco atraente, já me custa mais a entender quando são os próprios responsáveis a dispensarem as opiniões dos visitantes, a menos que se sintam impotentes em mudar seja o que for, pois “sempre foi assim”. Se é esse o caso, que desperdício de vida; que alheamento sobre o exercício profissional, eventualmente compensado com atividades criativas noutras vertentes, pessoais, familiares ou comunitárias, mas perdido naquilo que seria o mais importante. E esse desinteresse aparente é como um vírus que se espalha coletivamente e de maneira uniforme em concelhos deprimidos. E é algo que se nota facilmente. Não de forma instantânea nem nas construções e reabilitações, mas a pouco e pouco e em indicadores-chave, como a biblioteca e museu municipais (eventualmente também o posto de turismo), por exemplo, que são verdadeiras sínteses da vertente cultural e da dinâmica do concelho. Entrem numa dessas instalações, fora da época alta turística, e vejam se tem movimento, se o funcionário mostra interesse em explicar ou em acompanhar-vos na visita. Se isso não acontecer é quase garantido que o espaço não tem interesse e, se assim for, é muito provável que a depressão tenha atingido as restantes estruturas do concelho, funcionários e até habitantes. E porquê? Essa é a pergunta de um milhão de dólares e a única resposta possível está na vereação, mas apenas com uma percentagem de variância explicada não superior a 50%. O resto não sei…é complicado.


Eu sei que esta é uma teoria panfletária, sem dados objetivos que a comprovem, mas é melhor que nada e, pelo menos, baseia-se na observação de vários casos que, felizmente, representam apenas uma pequena percentagem do total que eu já visitei e que, aqui sim, deveriam justificar um esforço suplementar por parte das entidades responsáveis pela governação do território. Salvar os deprimidos deveria ser um desígnio nacional, pois são eles que puxam outros para trás e que espalham o vírus que mata a criatividade coletiva. Mas, por favor, não como se fosse a Europa a salvar países, atirando-lhes dinheiro para cima dos problemas. Não, tudo menos isso.

Vejamos o caso do Crato.


JORNADA 36 – VISITA AO CRATO


O Crato fica já ali, em relação a Ponte de Sor. Menos de 50km e estamos lá, numa vila cheia de história, onde se casaram reis, vingaram ordens religiosas e militares importantes, tendo sido sede do priorado dos Hospitalários; nobres lá se fixaram, palácios e solares se construíram, e até se fundou um castelo importante para a defesa da nação. Talvez que a triste sorte do castelo, tantas vezes reconstruído, mas finalmente destruído durante a Guerra da Restauração, quando estava a ser preparado para as novas dimensões da guerra do século XVII, e nunca reconstruído, se tenha transmitido ao resto da Vila, tão deprimida parece, em claro contraste com a florescente Ponte de Sor, mesmo ali ao lado. Não se vê indústria nem turismo e até o posto de turismo foi para longe, para o Mosteiro de Flor da Rosa, agora transformado em pousada pelo incontornável Pestana. A Vila é bem mais bonita que Ponte de Sor, com mais motivos de interesse e com o seu casco velho bem preservado. Tem uma biblioteca situada num edifício lindíssimo, antiga cadeia, em frente ao antigo museu, também ele bem atraente mas fechado, onde não existe uma simples monografia, ou um estudo mais extenso sobre o Crato – coisa que me aconteceu pela primeira vez. Sobra um caderno de fotografias do Concelho, que me ofereceram, da autoria de um israelita rendido às belezas de Portugal. Também foi a primeira vez que entrei numa biblioteca municipal vazia e sem sinais de qualquer iniciativa para atrair visitantes.


Depois de obtidos os documentos disponíveis no Posto de Turismo, em paredes meias com a pousada, e de visitar a exposição anexa de arte sacra, à base de imagens da Virgem, pertencentes ao Museu Nacional de Arte Antiga, dediquei-me a visitar a povoação. Segui para a Escola de Olaria, onde decorriam ateliers e figurava uma exposição dos Barros de Flor da Rosa, preparados sobretudo para poderem ir ao lume, como muito bem explicado pelo responsável, também entusiasta da preservação desta arte em extinção. Voltei então para o Crato, deixei o carro na ampla praça central, construída ao estilo de Nisa, e percorri as ruas com casas bem preservadas e decoradas do casco velho, visitei a Biblioteca e admirei o antigo museu, muito bem reconstruído mas, aparentemente, sem utilidade no presente. Na praça antiga admirei a bem conservada Varanda do Grão-Prior do Crato, do séc. XVI, bem como o edifício do Museu Municipal, instalado num bonito palácio do séc. XVIII, onde se repetiu a cena da Biblioteca. Completamente vazio, contém muitos artefactos pré-históricos, romanos e dos Hospitalários, acompanhados daqueles cartazes cheios de textos, com tamanho de letra micro, num conjunto totalmente desinteressante, guardado por uma funcionária que não se mexeu da sua cadeira. Valeu uma sala com pintura contemporânea, com quadros de Vieira da Silva, Malangatana, Manuel d’Assumpção e outros, fruto de uma iniciativa do Novo Banco. Depois de várias tentativas consegui aproximar-me do castelo, situado dentro de um muro, por ser propriedade privada. Sinceramente nunca tinha visto um monumento daquela dimensão impedido de ser visto por estar dentro de uma propriedade privada. Mesmo sem saber a razão de coisa tão estranha, acho o fenómeno perfeitamente obsceno, dada a importância histórica da Vila. Por último restava-me o Museu Padre Belo, que me deixou espantado. Com efeito, dentro de um apartamento grande mas perfeitamente normal, estão expostas centenas, milhares dos mais variados motivos religiosos, que o Padre Belo foi juntando toda a vida, com destaque para a representação de Cristo, com algumas figuras com elevado valor artístico. Aqui, também, se faz notar uma ausência de turistas, que poderia, talvez, ser contornada por aquelas excursões que vemos pelo país fora, por exemplo, mas que, por qualquer razão, não incluem o Crato nos seus itinerários. Compreende-se que povoações próximas, como Portalegre, Marvão e Castelo de Vide, sejam polos de atração muito fortes, mas isso não justifica o alheamento do Crato. Ali há gato!


Deixei a Vila e fui percorrer o Concelho, que é de pequena dimensão. Almocei bem no Lagarteiro, em Gafete, passei por algumas povoações sem grande interesse, e pus-me à procura da Anta do Tapadão. Ao fim de algumas tentativas lá encontrei o portão que dava acesso ao monumento, e iniciei a caminhada. Só que, em cada elevação que atingia, via nova placa a indicar que era mais longe, tendo acabado por desistir devido à chuva e à lama, quando já tinha a anta à vista, mas ainda bem longe. Preferi ir ver o que restava da Estação de Comboios de Vale do Peso, pois tinha visto fotos dos azulejos. Não resta muito, infelizmente, mas ainda justifica a visita, sobretudo para ver a rapidez com que se degradam instalações abandonadas, uma vez que ainda não há muito tempo a Quimigal tinha ali grandes armazéns.


De regresso a Lisboa, pela A23, ainda decidi tentar a minha sorte no Castelo da Amieira do Tejo, que estava fechado quando visitei o Concelho de Nisa. E deu para ver a altura das muralhas, com uma escadaria de acesso sem guarda que desafia os mais afoitos, e uma torre de menagem com vários patamares, onde cartazes e modelos ilustram a longa história do castelo, desde as suas origens Hospitalárias, do séc. XIII, até à sua quase destruição, aquando do terramoto de 1755. Em estreita ligação com o Crato e toda a região circundante, e encontrando-se em boas condições de construção, ali se poderiam materializar fases da nossa história profusamente ilustradas pelas ordens militares. É só ir até Alcântara, em Espanha, não muito longe dali, mesmo na fronteira, para termos uma ideia de como isso se pode fazer.


O meus adeus ao Crato, tão lindo mas tão remoto e com sabor tão amargo que, provavelmente, continuará a figurar no esquecimento das nossas rotas turísticas quando tinha todas as qualidades para ser uma atração.


 

 
 
 

Comentários


bottom of page